Quando os pets contaminam

As fezes dos animais em calçadas e áreas verdes podem trazer sérios riscos à saúde deles mesmos e das pessoas. Recolher os dejetos, além de cortez, é vital

Há poucas semanas os moradores de Águas Claras foram surpreendidos com as notícias de uma possível epidemia de giardíase, doença transmitida pelo parasita Giárdia, como é popularmente conhecida. O veterinário Luiz Fernando Cury de A. Filho, responsável pela Clínica Veterinária Vitta Vet em Águas Claras, afirma que atualmente a giardíase é o principal acometimento do trato gastrointestinal nos cães atendidos na clínica. Todos os dias pelo menos um novo caso na cidade é diagnosticado por ele.
Tanto animais quanto seres humanos podem ser contaminados pelo parasita que se aloja no intestino da vítima. Nos seres humanos, a giardíase é marcada por cólicas abdominais, flatulência, náuseas, episódios de diarreia aquosa, perda de peso, fadiga e mal-estar. Nos animais os sinais são variáveis em grau e manifestação, alguns apresentam somente anorexia e fezes amolecidas, outros manifestam vômito profuso, diarreia com sangue, anorexia e prostração. E alguns animais não apresentam sintoma algum, mesmo sendo portador do parasita e disseminando a doença.
Bons exemplos
Ana Cláudia Alves é dona da Molly, uma shih tzu de quatro anos e meio e só descobriu que a cachorrinha estava com o parasita Giárdia quando foi fazer uma bateria de exames para uma cirurgia de castração. “Ela já era vacinada contra esse parasita, isso ajudou para que não tivesse tanta reação”, conta Ana Cláudia. Mesmo antes do diagnóstico, a proprietária sempre manteve a prática de recolher as fezes da Molly, “tanto eu quanto meu marido recolhemos, é muito chato ver pessoas que ainda não o fazem, ontem mesmo meu marido pisou num cocô na esquina de casa, é lamentável.”
Devido à densidade populacional, os conglomerados de prédios, milhares de apartamentos e seus moradores, o número de animais de estimação na cidade de Águas Claras é bem elevado. Pela manhã, na hora do almoço, no meio da tarde, ao anoitecer… é comum na cena urbana encontrar animais de estimação, normalmente cachorros, fazendo xixi e cocô nas praças, gramados, calçadas e ruas. Até então normal, o problema é que a maioria dos proprietários não recolhe a sujeira deixada pelos animais.
O veterinário Luiz Cury alerta para as inúmeras preocupações relacionadas ao descaso com o recolhimento das fezes: “Além da transmissão de algumas doenças para o ser humano com parasitoses gastrointestinais e cutâneas, pode ocorrer também a transmissão de doenças entre os próprios animais como é o caso da giardíase, endoparasitoses, parvovirose, entre outras.” Segundo o especialista, o acúmulo de lixo orgânico predispõe o surgimento de insetos e animais oportunistas como o rato. O odor desagradável e a poluição também são resultantes da falta de descarte correto das fezes.
Alethea Amorim é moradora de Águas Claras há 16 anos e atualmente tem uma cachorra e uma gata. Para ela, recolher a sujeira do seu animal do espaço público é o mínimo que um cidadão civilizado deve fazer. “Se saio de casa para meu animal se aliviar na rua, tenho que recolher e descartar no lixo, é questão de educação. Sou até a favor de multa, doendo do bolso o mal educado aprende.” Alethea reclama da falta de lixeiras, “também precisa de mais lixeiras nas ruas, na minha calçada não há nenhuma. Recolho as fezes e levo comigo até entrar no condomínio para poder descartar.”
Doença grave
O parasita Giárdia é tão resistente que mesmo fora do organismo (humano ou animal) é capaz de sobreviver por semanas ou até meses. Acontece que antes de ser eliminada nas fezes, encasula-se em cascas duras chamadas de cistos. Uma vez que encontra um hospedeiro, os cistos se dissolvem e as parasitas são liberadas. Por isso a importância de recolher as fezes dos animais dos locais públicos e descartar em locais apropriados. A Giárdia presente nas fezes pode contaminar o meio ambiente e a água.
Luiz Cury destaca três pontos cruciais para controle da giardíase: “Primeiro deve-se tratar os doentes e portadores assintomáticos através de exame de fezes regular. Em segundo lugar a higiene do ambiente domiciliar e extra domiciliar (recolhendo as fezes de locais públicos) e por último a importância da vacinação e vermifugação específica de todos animais para evitar a transmissão. Vermífugos comuns, em doses convencionais não tratam e nem previnem a giardíase.”
O tratamento específico deve ser realizado mediante diagnóstico e prescrição de um veterinário, pois sem supervisão pode ser prejudicial ao animal e provocar resistência de microrganismos. Outras doenças que são transmitidas pelos parasitas intestinais dos cães para o ser humano são: larva migrans cutânea ou bicho geográfico; larva migrans visceral; dipilidiose e hidatidose.

Boo, Alethea e Pitty, para a dona recolher a sujeira do seu animal do espaço público é o mínimo que um cidadão civilizado deve fazer