O arquiteto despede-se da cidade

“Infelizmente, não fizeram o sistema viário e o parque urbano central. Mesmo na cidade em que o espaço do pedestre era tão bem dimensionado, que não seria caro arrumar direitinho, fazer praças e pisos, não souberam prestigiar esse espaço. Acho que o grande foco agora na vida urbana de Águas Claras é concentrar esforços no espaço do pedestre, respeitar as calçadas e fazê-las muito bem e bonitas. Calçada não é assunto para empresas de concreto derramarem caminhões e caminhões de concreto, calçada deveria ter um desenho e a população andar como se tivesse sido personalizada para cada um que pisa”, aconselhava Zimbres

O arquiteto e criador do projeto arquitetônico de Águas Claras, Paulo Zimbres, morreu nesta esta semana, dia 3 de junho, aos 86 anos, no Distrito Federal. Nascido em Ouro Preto, ele era formado pela Universidade de São Paulo (USP) e também se destacou como autor de projetos nos setores Sudoeste e Noroeste, em Brasília.
Em 1968, iniciou a sua carreira como professor da Universidade de Brasília (UnB), onde projetou o prédio da reitoria. Zimbres projetou também obras residenciais, equipamentos para campi universitários, como a biblioteca da Universidade Federal de Uberlândia e o Teatro UNIMEP. Além disso, realizou obras do Conselho Federal de Medicina e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Distrito Federal (CREA/DF).

Projeto desvirtuado
Criada para ligar os 4 quilômetros do metrô entre Taguatinga e Guará, a cidade de Águas Claras foi inaugurada praticamente no mesmo período em que o sistema de transportes foi lançado na capital federal. E tornou-se região administrativa no dia 6 de maio de 2003, e recebeu este nome devido ao córrego Águas Claras, que nasce na região e abastece o Lago Paranoá.
Em 1991, o arquiteto Paulo Zimbres foi convidado pelo então secretário de obras do Distrito Federal e coordenador da obra do metrô, José Roberto Arruda, para fazer o projeto da nova cidade.
“Havia um vazio onde é hoje a cidade de Águas Claras, que era um lugar inóspito para a finalidade a que estava destinado no momento. Era uma área rural, mas o solo que ficou lá era imprestável. A natureza do lugar fora rural, mas não era mais, devido à deterioração. E havia esse vazio de 4 quilômetros entre a última estação do Guará e a primeira de Taguatinga ou de Samambaia. Então, a gente tinha de criar uma cidade nesse lugar porque o vazio onerava muito o metrô”, lembrou Zimbres ao Folha de Águas Claras há três anos.

Nem tudo saiu
como o planejado
Paulo Zimbres criou Águas Claras com um diferencial: ser uma cidade onde as pessoas pudessem caminhar pelas ruas. “Infelizmente, não fizeram o sistema viário e o parque urbano central. O shopping que fizeram dentro da cidade deveria estar fora dela. O centro comercial fez um aterro que ‘comeu’ a calçada. É um absurdo não ter ninguém para controlar isso, ninguém para proteger o pedestre. Mesmo na cidade em que o espaço do pedestre era tão bem dimensionado, que não seria caro arrumar direitinho, fazer praças e pisos, não souberam prestigiar esse espaço. Acho que o grande foco agora na vida urbana de Águas Claras é concentrar esforços no espaço do pedestre, respeitar as calçadas e fazê-las muito bem e bonitas. Calçada não é assunto para empresas de concreto derramarem caminhões e caminhões de concreto, calçada deveria ter um desenho e a população andar como se tivesse sido personalizada para cada um que pisa”, afirmava Zimbres.