Entre avenidas movimentadas, obras constantes e a rotina intensa de um dos bairros mais populosos do Distrito Federal, o barulho se tornou parte do dia a dia de muitos moradores de Águas Claras. Para alguns, é um aspecto da vida urbana. Para outros, o excesso de ruído compromete o sono, o humor e a qualidade de vida.
Dados da Ouvidoria do Governo do Distrito Federal mostram que a poluição sonora permanece como um problema recorrente na capital. Foram registradas 2.633 ocorrências relacionadas a barulho, distribuídas por diversas regiões administrativas. Em Águas Claras, houve 144 registros, o que reforça a presença do tema entre as preocupações locais.
Além das reclamações formais, ações de fiscalização têm buscado coibir fontes específicas de ruído. Em operações realizadas pelo Departamento de Trânsito do Distrito Federal, conhecidas como Operação Sossego, motociclistas já foram autuados em Águas Claras por circular com escapamentos irregulares, uma das principais causas de poluição sonora nas vias urbanas.

João Freire relata que o barulho do trânsito em Águas Claras afetava o sono e a rotina dentro de casa.

O morador João Freire conta que não imaginava enfrentar esse tipo de problema quando se mudou para o bairro. Mesmo sabendo do trânsito intenso, ele diz que só percebeu o impacto do ruído ao viver próximo a uma das avenidas mais movimentadas da cidade.
“O primeiro apartamento em que morei era bem próximo da Avenida Castanheiras. O barulho do trânsito incomodava bastante até as 23h. Parecia que eu estava no meio da rua, apesar de morar no oitavo andar”, relata.
Segundo ele, os principais responsáveis pelo incômodo eram motos, buzinas e a movimentação noturna da região. Para reduzir os efeitos do barulho, passou a manter as janelas fechadas quase o tempo todo, o que se tornava mais difícil nos dias quentes. “Em dias quentes era realmente um problema e prejudicava minha qualidade de vida”, afirma.
A mudança para um apartamento em posição mais silenciosa alterou sua percepção sobre o peso do ruído na rotina. “Hoje moro em um apartamento de fundos, bem silencioso, e passei a dormir melhor. Quando chego do trabalho, consigo relaxar, assistir a um filme ou ler um livro sem a barulheira dos carros e motos”, diz.
Nem sempre, porém, o problema vem da rua. Dentro dos condomínios, o barulho também tem sido motivo de conflito entre vizinhos. O jornalista Felipe Camelo morou por seis anos na quadra 104 de Águas Claras e deixou o bairro há nove meses. Entre os fatores que pesaram na mudança, ele cita justamente a falta de tranquilidade provocada pelo excesso de ruído. Durante o período em que viveu na região, enfrentou diferentes tipos de incômodo.

Felipe Camelo diz que ruídos vindos da rua, de obras e de vizinhos estiveram entre os incômodos enfrentados no bairro.

“Escapamentos alterados de motos e carros incomodavam bastante. Também tinha o barulho de pessoas jogando futebol ou vôlei altas horas da noite e o som das obras de construção e reformas de prédios”, relata. Dentro do próprio prédio, o desconforto também se repetia. “A vizinha de cima caminhava de salto durante a madrugada”, conta.
Felipe chegou a registrar reclamação no condomínio por causa dos barulhos internos, mas não formalizou queixas sobre os ruídos vindos da rua. Segundo ele, o impacto era sentido principalmente no descanso e no humor. “Acordava cedo para trabalhar e muitas vezes dormia tarde por causa do incômodo.”
Em uma região marcada pela predominância de condomínios verticais, o equilíbrio entre convivência e silêncio nem sempre é simples. Para Felipe, a melhoria do ambiente coletivo passa por diálogo, respeito às regras condominiais e atenção às normas de convivência. “Para melhorar a convivência nos prédios é fundamental focar na comunicação clara, no respeito às regras do condomínio e às leis de convivência comum, especialmente em relação ao barulho, além de incentivar mais integração entre os moradores da região.”