por Aline Diniz
Entre as árvores do Parque Ecológico, as missas de domingo em família e as lembranças acumuladas ao longo dos anos, o alagoano Antônio de Lisboa Marinho, o Lisboa, foi construindo uma relação afetiva com Águas Claras que acabou transbordando para o papel. Aposentado, poeta por vocação e observador por natureza, ele encontrou na cidade inspiração para registrar em versos aquilo que mais lhe chama a atenção, a convivência entre as pessoas, os laços familiares, a fé, os momentos simples e o crescimento de uma região que, para ele, deixou de ser apenas endereço para se tornar parte de sua própria história.
Nascido em Alagoas, Lisboa carrega a simplicidade de quem observa mais do que fala. Em suas caminhadas, nas missas de domingo, nos encontros com amigos e até no trânsito, ele encontra inspiração para escrever. Seus poemas não nascem de acontecimentos extraordinários, mas das pequenas cenas que passam despercebidas pela maioria das pessoas.
“Eu escrevo sobre datas significativas, sobre a família, sobre a cidade, sobre o trânsito, sobre aquilo que vejo no dia a dia”, conta.
Ao falar de Águas Claras, Lisboa não descreve apenas prédios, avenidas ou comércios. Ele fala de pertencimento.
Em um de seus poemas dedicados à cidade, define o lugar como uma comunidade marcada pela convivência e pelo acolhimento. Em um trecho, escreve que Águas Claras é uma cidade jovem e moderna…
“Águas Claras
Vivendo alegre cada morador
Uma cidade jovem e moderna
Gerência bem o administrador
A todos uma amizade fraterna
Vários lugares boa alimentação
Tem bom atendimento o cliente
Restaurantes e fácil localização
Uma curtição de cada residente
Estão felizes dizem cada família
Convidando parentes para morar
É parte de nossa capital Brasília
Lugar especial vocês vão adorar” […]
É o que o escritor diz com grande entusiasmo, um pequeno trecho de uma de suas poesias que tem como título o nome da cidade. A visão otimista aparece quando descreve o crescimento da região. Para ele, o desenvolvimento urbano não apagou a dimensão humana do bairro. Mais do que cenário, que inspira versos a cidade visivelmente se tornou parte de sua própria história.
Durante muitos anos, o Parque Ecológico de Águas Claras fez parte da rotina de Lisboa. Não por acaso, um dos trechos de seu poema sobre Águas Claras é dedicado justamente a esse espaço:
… “O parque lugar da caminhada
Tem os praticantes de corrida
Uma prática a ser continuada
As duas alongam mais a vida.”
A observação cotidiana dos frequentadores, dos casais, das famílias e dos esportistas acabou se transformando em matéria para a escrita. Foi também no parque que surgiram alguns dos poemas posteriormente expostos em painéis públicos.
Entre eles está o texto dedicado ao Dia dos Namorados, instalado em uma das estruturas do parque e acompanhado de imagens que remetem ao afeto e à convivência.
No entanto, os feitos literários de Lisboa não se detêm em versos que descrevem apenas sentimentos e datas comemorativas. Uma de suas realizações mais curiosas foi a elaboração de uma cartilha poética sobre educação no trânsito. O trabalho levou quase uma década para ser concluído.
Nela, o aposentado transformou regras de convivência em versos rimados: respeito à faixa de pedestres, atenção aos limites de velocidade, valorização das vagas destinadas a idosos e pessoas com deficiência e os riscos de dirigir após consumir bebida alcoólica.
O autor faz questão de salientar que o objetivo nunca foi comercial. “Não quero vender, não quero dinheiro. Minha vontade é divulgar para que as pessoas assimilem o que deve ser feito para evitar acidentes”, explica.
A iniciativa revela uma característica marcante de sua escrita: para Lisboa, a poesia não serve apenas para emocionar. Ela também pode orientar, educar e aproximar as pessoas de valores que considera essenciais.
O poeta das coisas simples
Além dos versos, Lisboa também cultivou outros talentos ao longo da vida. Jogou futebol durante muitos anos, participou de campeonatos em Maceió e desenvolveu habilidade para o desenho, e apesar de hoje em dia não exercitar mais essa habilidade, guarda com carinho os exemplares da primorosa arte, em seu acervo pessoal. E é assim entre memórias de grandes feitos e seu olhar ainda atento aos detalhes de tudo que faz parte da rotina em Águas Claras, como a movimentação no parque, os encontros entre amigos, as famílias reunidas, os corredores nas pistas, o café compartilhado e os momentos de convivência que o autor vem construindo o sentimento de comunidade que por vezes transborda em seus manuscritos.
Talvez seja justamente essa capacidade de enxergar beleza no cotidiano que explique a permanência de seus versos. Enquanto muitos atravessam a cidade com pressa, Antônio Lisboa segue observando. E transformando observação em poesia.






