Por Patrícia Rebelo

Quem chega à Feira Livre de Águas Claras em uma manhã de sábado encontra muito mais do que frutas, verduras, carnes, queijos, peixes e produtos artesanais. Entre uma banca e outra, circulam histórias de vida que se confundem com a própria formação da cidade. Instalada na Avenida Sibipiruna, lote 1, ao lado do Batalhão da Polícia Militar, a feira funciona há 24 anos e se consolidou como um dos espaços mais tradicionais de convivência, comércio e lazer da região. O que muitos moradores não sabem é que a feira é mais antiga que a própria cidade de Águas Claras.
“Na realidade, nós somos mais velhos do que a cidade. A feira veio primeiro. Depois veio Águas Claras”, afirma Herbert de Oliveira, presidente do Conselho Fiscal da associação e conhecido por todos simplesmente como Seu Oliveira. Aos 54 anos de idade e com mais de quatro décadas dedicadas ao trabalho em feiras livres, ele acompanha a trajetória do espaço desde o início. Segundo ele, a história da feira acompanha o crescimento urbano da região e também a transformação dos seus frequentadores. “Nós temos clientes aqui desde aquela época. Tem gente que estava na barriga da mãe quando começou a vir para cá e hoje faz compras aqui com os próprios filhos”, conta.


Atualmente, a feira reúne cerca de 35 feirantes e é administrada por uma associação formada pelos próprios trabalhadores. A diretoria é composta por Maria da Conceição de Oliveira, presidente; Cleiton Araújo, diretor administrativo; Camila Araújo, diretora financeira; Elandro Borges, vice-presidente; e Seu Oliveira, à frente do Conselho Fiscal. Juntos, eles representam um grupo que ajudou a construir uma tradição que atravessou mudanças de governo, disputas por espaço e décadas de dificuldades estruturais sem interromper suas atividades.

Construção de uma tradição
Antes de chegar ao local atual, a feira passou anos funcionando em terrenos particulares. Os comerciantes dependiam da boa vontade dos proprietários e conviviam com a insegurança de ter que desmontar tudo sempre que o dono do lote decidia utilizar a área. Segundo os feirantes, a conquista de um espaço público foi resultado de uma longa mobilização. Seu Oliveira lembra que a permanência da feira em Águas Claras contou com o apoio de gestores públicos em diferentes momentos, entre eles Athayde Passos da Hora, que ajudou a viabilizar a ocupação de uma área pública, além dos ex-administradores Ney Robsthon e Mário Furtado, lembrados pelos comerciantes como responsáveis por importantes melhorias estruturais.

A importância econômica da feira é evidente para quem trabalha no local. Segundo a diretoria, cerca de 90% dos feirantes dependem exclusivamente da renda obtida aos fins de semana. Para muitas famílias, a feira foi responsável pelo sustento de várias gerações. Seu Oliveira costuma resumir essa realidade em uma frase que repete com orgulho: “Eu não me formei, mas consegui formar meus filhos.”

A consolidação da feira, entretanto, foi um processo lento. Durante muitos anos, o local funcionou praticamente sem infraestrutura. Quando chovia, a água atravessava a área onde as bancas eram montadas e transformava o espaço em um verdadeiro lamaçal. “Quando chovia era uma calamidade. A água passava por baixo das bancas e chegava na canela. Teve época em que cliente colocava o carro dentro da feira para buscar a esposa e os filhos sem precisar passar pela lama”, recorda Seu Oliveira. Apesar das dificuldades, os moradores continuavam frequentando o local. “Nunca deixaram de vir. Sempre foram muito fiéis com a gente.”
As melhorias começaram a chegar apenas após muitos anos de reivindicações. O piso que existe hoje, a instalação da rede elétrica, a chegada da água encanada, a construção dos banheiros e até mesmo o recolhimento regular do lixo são conquistas relativamente recentes para quem passou mais de duas décadas trabalhando em condições precárias. Segundo os feirantes, durante anos o lixo produzido era retirado pelos próprios comerciantes, que levavam os resíduos embora em seus veículos após o encerramento das atividades. “Foram mais de vinte anos até conseguirmos que o lixo fosse recolhido aqui. Antes a gente carregava tudo embora”, lembra Seu Oliveira.
A instalação dos banheiros também representou uma mudança importante. Durante muito tempo, trabalhadores e visitantes não contavam com nenhuma estrutura desse tipo. Hoje, a feira dispõe de banheiros com água e descarga, construídos com recursos e esforço dos próprios feirantes. “Pode parecer simples para quem chega aqui hoje, mas para nós foi uma vitória enorme”, afirma.

Qualidade, amizade e compromisso com os clientes
Embora a cidade tenha crescido rapidamente ao seu redor, a Feira Livre de Águas Claras preserva características que seus organizadores consideram essenciais. “Para os feirantes, uma feira livre deve ser um espaço aberto, onde os clientes possam enxergar todas as bancas, circular livremente e manter contato direto com quem produz ou comercializa os produtos”, conta Luana Michele, responsável pelas redes sociais da Feira.
“Hoje muitas feiras perderam essa característica e parecem um shopping. Você entra e não consegue ver quem está vendendo do outro lado. Aqui a gente quer manter a essência da feira. O cliente precisa enxergar tudo”, explica Seu Oliveira.
Esse compromisso também aparece na forma como a associação administra o espaço. O estatuto da entidade proíbe a venda ou o aluguel das bancas. Quando um feirante decide deixar a atividade, o espaço retorna para a associação, que seleciona um novo integrante. Atualmente, mais de cem pessoas aguardam uma oportunidade para ingressar na feira. Mesmo assim, o crescimento é planejado. A intenção é chegar a cerca de 50 feirantes, número considerado ideal para preservar o controle de qualidade dos produtos oferecidos.
“Aqui ninguém trabalha com mercadoria de segunda qualidade. Todos nós temos compromisso com isso”, afirma Seu Oliveira. Nas bancas é possível encontrar frutas, verduras, legumes, produtos orgânicos, peixes, camarão, ovos, queijos, castanhas, temperos, linguiças artesanais, carnes selecionadas, frango caipira, cafés especiais, tapiocas, pastéis, empadas, sanduíches, churrasco, carne defumada, carne assada e diversas outras opções gastronômicas. Segundo os comerciantes, um dos diferenciais da feira é oferecer produtos de qualidade com preços considerados acessíveis, mesmo em uma das regiões de maior poder aquisitivo do Distrito Federal.
Para Cleiton Araújo, diretor administrativo da associação, o principal diferencial da Feira Livre de Águas Claras não está apenas nos produtos, mas nas relações construídas ao longo dos anos. “O que faz essa feira ser diferente é o fluxo de amizade que existe aqui. Nós conhecemos os clientes pelo nome, conhecemos as famílias. Tem gente que saiu de Águas Claras, foi morar no Lago Norte, no Lago Sul, na Asa Norte, e continua vindo fazer compras aqui. Isso mostra que existe uma relação muito forte.”

Gerações
A história de Maria da Conceição de Oliveira também ilustra essa ligação. Atual presidente da associação, ela chegou à feira como cliente. Com o passar do tempo, passou a trabalhar em bancas de outros comerciantes e hoje administra seu próprio negócio. “Meus filhos cresceram aqui dentro. Trabalharam nas bancas, aprenderam a lidar com as pessoas e foram criados nesse ambiente”, conta.
A sucessão familiar já faz parte da realidade da feira. Camila Araújo, diretora financeira da associação, começou a frequentar o local aos sete anos de idade acompanhando o pai, Cleiton. Hoje, aos 33 anos, participa da gestão da entidade. “Eu cresci aqui. A feira representa convivência, experiência, aprendizado e tradição familiar”, afirma.
O vice-presidente Elandro Borges também construiu sua trajetória profissional dentro do espaço. Ele conta que chegou à feira em um momento de dificuldade, quando estava desempregado. A oportunidade acabou se transformando em um negócio próprio que cresceu ao longo dos anos. “Comecei vendendo frango caipira e outros produtos artesanais. Depois vieram os cafés especiais e agora a carne assada. Tudo isso nasceu através da feira”, relata.
Apesar das conquistas acumuladas ao longo de 24 anos, os feirantes acreditam que a principal batalha ainda está por vir. O grupo sonha com uma estrutura definitiva, capaz de oferecer mais conforto para trabalhadores e clientes. O projeto inclui cobertura permanente, pavimentação adequada, estacionamento e melhores condições para o funcionamento das bancas. Atualmente, a estrutura de cobertura utilizada é alugada e montada semanalmente, gerando custos que ultrapassam R$ 1.200 por fim de semana.
“Nós somos conhecidos como os ciganos de Águas Claras. Carregamos nossa feira para onde for preciso”, brinca Cleiton, referindo-se à necessidade constante de montar e desmontar toda a estrutura.
Além da sede definitiva, os comerciantes também discutem projetos para modernizar os serviços. Um deles prevê a criação de um sistema integrado de entregas, permitindo que os moradores façam pedidos de diferentes bancas e recebam todos os produtos em uma única entrega. A iniciativa ainda está em fase de planejamento, mas demonstra a disposição dos feirantes em acompanhar as mudanças do mercado sem abrir mão da tradição que tornou a feira uma referência na cidade.
Enquanto o futuro não chega, a rotina segue todos os fins de semana. Os clientes continuam chegando cedo, os comerciantes montam suas bancas antes do amanhecer e a feira mantém viva uma tradição que resiste há mais de duas décadas. Para Seu Oliveira, a explicação é simples. “Eu já tentei ficar em casa no fim de semana e não consegui. Para mim, a feira é como respirar.” A frase resume o sentimento de muitos dos trabalhadores que ajudaram a transformar um espaço de comércio em um patrimônio afetivo de Águas Claras.