A sequência de episódios de violência envolvendo pessoas em situação de rua aumentou a preocupação de moradores do Distrito Federal e chegou também a Águas Claras. Nas últimas semanas, agressões, roubos e ocorrências mais graves foram registrados em diferentes regiões da capital, enquanto o Governo do Distrito Federal passou a reforçar ações de acolhimento, assistência social, saúde e segurança.
Em Águas Claras, pelo menos dois episódios recentes chamaram a atenção. Um deles ocorreu em 28 de julho, quando um jovem de 18 anos foi agredido por um homem em situação de rua nas proximidades da Praça Ipê Amarelo. Segundo informações divulgadas sobre o caso, a vítima foi atingida por um soco, teve os óculos quebrados contra o rosto e sofreu ferimentos.
Outro episódio ocorreu em 13 de agosto, na Quadra 301, próximo à Paróquia Nossa Senhora da Assunção. Três pessoas em situação de rua se envolveram em uma briga, que deixou dois homens feridos.
Segundo a Polícia Militar do Distrito Federal, faca e pedras teriam sido utilizadas durante a ocorrência. Uma das vítimas precisou ser encaminhada ao Hospital Regional de Taguatinga. Após receber as características do suspeito, policiais do 17º Batalhão realizaram buscas pela região e localizaram o homem nas proximidades. Ele foi preso em flagrante por tentativa de homicídio. Durante a abordagem, uma faca que teria sido utilizada na agressão foi apreendida.
Os casos aumentaram a preocupação de moradores de Águas Claras, especialmente porque ocorreram em áreas de circulação de pedestres e próximas a residências, comércios, igrejas e espaços públicos.

Problema atinge
todo o DF
A situação observada em Águas Claras faz parte de um quadro mais amplo no Distrito Federal. Nas últimas semanas, uma sequência de episódios de violência e ocorrências policiais envolvendo pessoas em situação de rua foi registrada em regiões como Asa Sul, Asa Norte, Taguatinga e Ceilândia.
Entre os casos de maior repercussão está a agressão a uma criança de 5 anos na Asa Sul, atingida com um chute na cabeça. Também houve a morte de um trabalhador terceirizado que prestava serviços ao Senado Federal, atacado com dezenas de golpes de faca em Taguatinga.
Outras ocorrências envolveram agressões a uma jornalista no Setor de Rádio e Televisão Norte, a um zelador na Asa Norte e a uma mulher atacada com um pedaço de vidro em uma parada de ônibus.
Embora os episódios aumentem a preocupação com a segurança, especialistas alertam que os casos não devem ser usados para caracterizar toda a população em situação de rua. Transtornos de saúde mental, dependência de álcool e outras drogas, rompimento de vínculos familiares e situações prolongadas de vulnerabilidade tornam o problema complexo e exigem atuação conjunta de diferentes áreas do poder público.

Mais de 3,5 mil
vivem nas ruas
O 2º Censo Distrital da População em Situação de Rua identificou 3.521 pessoas nessa condição no Distrito Federal em abril de 2025. O levantamento apontou crescimento em relação ao censo anterior e reforçou a dimensão do desafio enfrentado pelo poder público.
O problema envolve não apenas segurança, mas também assistência social, saúde, moradia, emprego, dependência química e reconstrução de vínculos familiares. Em Águas Claras, o próprio GDF já havia identificado diferentes locais de concentração desse público antes dos episódios recentes de violência.
Em 17 de julho, equipes do Governo do Distrito Federal realizaram uma ação de acolhimento em 13 pontos de Águas Claras. O trabalho alcançou áreas próximas à linha do metrô, às avenidas Boulevard e Araucárias, ao Parque Ecológico, à Estação Arniqueiras e à Quadra 301.
A região voltou a ser incluída em ações do governo em agosto. Durante as abordagens, as equipes oferecem atendimento social e apresentam alternativas de acolhimento e acesso aos serviços públicos.
As operações fazem parte de uma estratégia que vem sendo ampliada para diferentes regiões administrativas e busca identificar pessoas em situação de vulnerabilidade, oferecer atendimento e retirar estruturas instaladas irregularmente em áreas públicas.
Novo protocolo
Diante do aumento das ocorrências e da necessidade de uma resposta integrada, a governadora Celina Leão colocou em funcionamento um novo protocolo para casos envolvendo pessoas em situação de rua que apresentem problemas graves de saúde mental ou dependência química.
O Decreto nº 49.089, publicado em 7 de agosto, regulamentou a Política Distrital de Acolhimento Humanizado e Atenção Integral à População em Situação de Rua.
O novo modelo estabelece uma atuação conjunta entre assistência social, saúde, segurança pública e outros órgãos do governo. O objetivo é criar um fluxo definido para situações que antes eram atendidas de maneira fragmentada.
Pelas regras, o acolhimento voluntário permanece como procedimento principal. A internação involuntária poderá ocorrer apenas em situações excepcionais, mediante avaliação e indicação médica.
Entre os casos previstos estão situações em que a pessoa apresente risco à própria vida ou à de terceiros, episódios de violência ou quadros graves de saúde mental.
O novo protocolo prevê a participação de equipes especializadas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu, na avaliação dos casos. Quando uma pessoa em situação de rua for levada a uma delegacia em razão de uma ocorrência policial e apresentar sinais de crise psiquiátrica, transtorno mental ou problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, a autoridade policial poderá solicitar uma avaliação de saúde.
Dependendo do quadro, o paciente poderá passar por atendimento em uma unidade de saúde e, quando houver indicação médica, ser encaminhado para tratamento especializado.
O Hospital São Vicente de Paulo, em Taguatinga Sul, integra a rede de referência para urgências e emergências relacionadas à saúde mental no Distrito Federal.
Celina Leão afirmou que a criação do novo fluxo procura solucionar uma dificuldade antiga na atuação do governo, já que equipes de segurança, saúde e assistência social nem sempre contavam com procedimentos padronizados para atender pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
Retorno às
cidades de origem
Outra medida adotada pelo governo é a oferta de passagens interestaduais para pessoas em situação de rua que desejem retornar à cidade de origem ou a locais onde mantenham vínculos familiares e comunitários.
Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Desenvolvimento Social, 42 pessoas receberam passagens interestaduais desde o início de 2026.
A concessão depende de avaliação técnica da assistência social e faz parte dos benefícios destinados a pessoas em situação de vulnerabilidade temporária.
O objetivo é permitir que quem manifeste interesse possa reconstruir vínculos familiares ou comunitários em outros estados.
Celina Leão também anunciou a transferência do Centro Pop atualmente instalado na Asa Sul. Segundo a governadora, o novo espaço deverá reunir serviços como alimentação, banho, emissão de documentos, atendimento em saúde, assistência social e apoio para pessoas que desejem retornar às cidades de origem.
A intenção do governo é concentrar diferentes serviços em um mesmo local e ampliar o controle e o acompanhamento das pessoas atendidas.
A estratégia anunciada pelo GDF combina acolhimento social, atendimento de saúde mental, ações de segurança, oferta de serviços públicos e desmobilização de ocupações irregulares.
Desafio para
Águas Claras
Em Águas Claras, a preocupação ganhou força com os episódios recentes registrados em áreas bastante movimentadas da cidade. A presença de pessoas em situação de rua já vinha sendo acompanhada pelas equipes do governo, inclusive em regiões próximas ao metrô, ao Parque Ecológico e à Quadra 301.
Os casos de violência reforçam a cobrança por segurança, mas também mostram que o problema exige respostas permanentes nas áreas de saúde e assistência social.
A política adotada pelo GDF busca atuar nas duas frentes: ampliar a proteção da população nos espaços públicos e oferecer acolhimento, tratamento e alternativas para as pessoas que vivem nas ruas.
O desafio não é exclusivo de Águas Claras. Com mais de 3,5 mil pessoas identificadas em situação de rua no Distrito Federal, a questão passou a ocupar espaço central no debate sobre segurança, saúde pública e assistência social em toda a capital.






