Por Elsânia Estácio

No mês de conscientização e combate à violência contra a mulher, a Lei Maria da Penha completa 19 anos, consolidando-se como um dos principais marcos no enfrentamento à violência doméstica no Brasil. Diversas ações de conscientização são realizadas em todo o país, incluindo no Distrito Federal, por meio da campanha Agosto Lilás, com o objetivo de prevenir agressões, divulgar canais de denúncia e fortalecer a rede de apoio às vítimas.
Além de dar visibilidade ao tema, a campanha busca mobilizar instituições públicas, sociedade civil e entidades representativas da advocacia em ações de prevenção e fortalecimento da rede de proteção. De acordo com dados divulgados pelo painel do Ligue 180, lançado recentemente pelo Governo Federal, as denúncias de violência contra a mulher continuam crescendo no país.
A plataforma funciona 24 horas por dia e reúne informações sobre os tipos de violência, o perfil das vítimas e as regiões mais afetadas, atuando não apenas como canal de denúncia, mas também como instrumento estratégico para orientar políticas públicas.

Advocacia feminina e ações locais

Para Amanda Larysse S. Pessoa, presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/DF – Subseção Águas Claras, o Agosto Lilás é um momento estratégico para fortalecer o diálogo com a sociedade. “A missão da Comissão é fortalecer a advocacia feminina, ampliar a representatividade das mulheres nos espaços institucionais e, sobretudo, promover políticas de enfrentamento à violência de gênero. Nossas ações têm sido múltiplas: desde campanhas de conscientização em espaços públicos até a realização de palestras, rodas de conversa e produção de materiais informativos, como a cartilha Parque Seguro é Direito das Mulheres.”

“É inegável o avanço na responsabilização dos agressores e na criação de medidas protetivas urgentes. No entanto, ainda precisamos superar falhas na estrutura de atendimento, na celeridade das medidas protetivas e, principalmente, na criação de políticas públicas permanentes que assegurem autonomia econômica e social às mulheres em situação de violência”, conta advogada Amanda Pessoa

Já a conselheira suplente do Conselho de Direitos da Mulher do DF, Aline Diniz, chama atenção para o papel da prevenção desde a juventude. “É fundamental levar às escolas públicas palestras e debates sobre violência física, psicológica e patrimonial, para que, desde cedo, meninas e meninos compreendam a gravidade do problema e saibam como denunciar. Muitas vezes, a violência é velada, não percebida nem por quem está ao redor, mas causa traumas profundos e consequências sociais e econômicas.”

“Debatemos meios de acolhimento, abrigos temporários, capacitação profissional e projetos que possam restaurar a vida dessas mulheres. Essas propostas são levadas aos deputados e comissões legislativas, na busca por leis e emendas parlamentares que viabilizem sua implementação”, explica conselheira suplente do Conselho de Direitos da Mulher do DF, Aline Diniz

A presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/DF, Sthefany Vilar, amplia a análise ao destacar o papel da legislação e os obstáculos atuais. “A Lei Maria da Penha representou uma mudança de paradigma ao reconhecer a violência doméstica como uma violação de direitos humanos. Mas sua efetividade depende da estrutura adequada das delegacias especializadas, da ampliação das casas de acolhimento e da capacitação contínua dos profissionais que atuam na rede de proteção.”

“Temos recebido relatos de violência doméstica praticada contra mulheres, advogadas e também de lawfare de gênero, quando o processo judicial é usado como arma de intimidação e desgaste. São situações que exigem respostas firmes e coordenadas”, relata a presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB/DF, Sthefany Vilar

A advogada de gênero e direitos humanos Ingrid Tietro, vice-presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica da OAB/Águas Claras, destacou que a Lei Maria da Penha mudou a forma como o Brasil encara a violência doméstica. “A violência que antes era vista como questão privada passou a ser reconhecida como violação de direitos humanos. As medidas protetivas de urgência foram um avanço histórico, pois interrompem o ciclo da violência e salvam vidas”, explicou.

“Há dificuldades na celeridade das medidas protetivas e na integração entre os órgãos do sistema de justiça. Além disso, muitas mulheres sofrem revitimização ao buscar ajuda, o que mina a confiança no sistema”, conta Ingrid Tietro, vice-presidente da Comissão de Combate à Violência Doméstica da OAB/Águas Clara

Sobre o painel do Ligue 180, Ingrid ressaltou a importância da ferramenta para orientar políticas públicas locais: “Esses dados transformam o Ligue 180 em uma base de inteligência, ajudando a identificar territórios vulneráveis e a planejar campanhas específicas em regiões como Águas Claras, Vicente Pires e Arniqueira.”

Assistência multissetorial

Andreia Quadros, advogada especialista em direito criminal, defesa das vítimas e combate a todo tipo de violência, destaca aspectos fundamentais da Lei Maria da Penha que ainda são pouco conhecidos. “É fundamental esclarecer que a violência patrimonial, que inclui a retenção de documentos, destruição de bens ou controle financeiro abusivo, é tão crime quanto a agressão física”.

“Outro direito essencial e pouco divulgado, segundo Andrea, é a assistência multissetorial: a vítima tem direito não apenas ao amparo jurídico, mas também a suporte psicológico e social integrado”, explica a advogada Andreia Quadros

Sobre os desafios na aplicação da lei após 19 anos de vigência, Andreia explica que, embora a legislação tenha avançado muito com as medidas protetivas de urgência, ainda esbarramos em problemas estruturais graves. “A demora na concessão dessas medidas, a falta de integração entre os órgãos de proteção e a ausência de políticas permanentes para garantir autonomia econômica às vítimas continuam sendo obstáculos que precisamos superar.”
Como proposta para avançar no combate à violência, a advogada defende que é necessário incluir urgentemente no currículo escolar conteúdos sobre direitos das mulheres e noções de autoproteção.
“Paralelamente, é essencial criar redes de acolhimento que ofereçam não apenas abrigo temporário, mas capacitação profissional para que essas mulheres conquistem verdadeira independência”, conclui Andreia.