Uma reunião realizada em Águas Claras na quarta-feira, 25 de fevereiro, apresentou um projeto voltado à ampliação da segurança urbana por meio da cooperação entre moradores, comércio local e poder público. O encontro reuniu mais de 30 síndicos interessados em conhecer a Rede Olho Vivo, proposta que incentiva condomínios e estabelecimentos comerciais a integrar câmeras perimetrais à plataforma DF 360, da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF).
A iniciativa é conduzida por uma consultoria de gestão condominial em parceria com a Associação de Moradores e Amigos de Águas Claras (AMAAC). A proposta, segundo os organizadores, busca conectar estruturas já existentes de vigilância em prédios e pontos comerciais a um sistema público de monitoramento, ampliando a cobertura em áreas de circulação e reforçando a capacidade de prevenção e de resposta a ocorrências.

O sistema é estruturado em módulos integrados e complementares, concebidos para oferecer uma solução completa de segurança pública, que abrange desde o atendimento às demandas do cidadão até a atuação policial proativa

Integração de imagens
O DF 360 é uma plataforma integrada que reúne imagens de câmeras espalhadas pelo Distrito Federal. De acordo com informações compartilhadas durante a apresentação, a SSP-DF conta com cerca de 1.350 câmeras próprias distribuídas nas 35 regiões administrativas e com mais de 250 equipamentos de parceiros. O acompanhamento é feito 24 horas por dia no Centro Integrado de Operações de Brasília (Ciob), com apoio de centrais instaladas em batalhões da Polícia Militar, unidades do Corpo de Bombeiros e delegacias da Polícia Civil, permitindo visão simultânea e em tempo real de pontos considerados estratégicos.
A Rede Olho Vivo propõe adesão voluntária, com o compartilhamento das imagens de câmeras já instaladas nas áreas externas dos condomínios e de estabelecimentos, sem custo adicional para implementação do projeto. Segundo o que foi apresentado aos participantes, a integração ocorre com respaldo jurídico e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com acesso restrito a servidores autorizados. A SSP-DF informa que as imagens das câmeras próprias permanecem armazenadas por até 30 dias, enquanto as provenientes de parceiros ficam disponíveis por até 72 horas, conforme os termos de cooperação.
Em fase experimental, o Condomínio Viva La Vie foi apresentado como o primeiro edifício da região a integrar suas câmeras ao DF 360, com transmissão em tempo real. O caso foi citado como exemplo da viabilidade técnica do compartilhamento, além de sinalizar a possibilidade de ampliar a rede a partir da adesão de outros empreendimentos.
Durante o encontro, síndicos esclareceram dúvidas legais e discutiram o papel da sociedade no enfrentamento à criminalidade. Roverson Feitosa, representante da consultoria envolvida na iniciativa, afirmou que o projeto busca unir esforços que hoje funcionam de forma isolada. “É uma solução atual, que cria uma rede colaborativa. Quando os condomínios deixam de agir sozinhos, a segurança se fortalece”, disse.
A especialista em gestão condominial Karine Pagotte avaliou que a estrutura dos condomínios, por já operar como comunidade organizada, tende a facilitar decisões coletivas sobre prevenção e proteção do entorno. O presidente da AMAAC, Román Cuattrin, afirmou que a participação dos síndicos tem papel central no avanço da rede e associou a iniciativa a ganhos de qualidade de vida e valorização imobiliária.
O evento também reuniu relatos de experiências práticas. Vitor dos Santos, síndico do Condomínio Shangrilá, afirmou que imagens captadas pelo prédio já auxiliaram na apuração de ocorrências. Dúvidas técnicas sobre conexão, transmissão e requisitos do sistema foram esclarecidas por Erly Karliston, especialista em sistemas de segurança.
Segundo os organizadores, edifícios e pontos comerciais que aderirem ao projeto podem receber autorização para instalar placa informativa, com modelo definido pela SSP-DF, indicando que as imagens do local são compartilhadas em tempo real com a SSP-DF, a Polícia Civil e a Polícia Militar do Distrito Federal.

Entenda o projeto
A integração de câmeras privadas ocorre em um momento de ampliação do DF 360, apresentada pelo Governo do Distrito Federal na sexta-feira, 27 de fevereiro, com a incorporação de novos recursos tecnológicos e a modernização dos canais de emergência. A SSP-DF informou que o sistema passa a contar com drones e com um conjunto maior de licenças de inteligência artificial, que permitem direcionar o monitoramento para situações específicas, como a detecção de comportamentos considerados suspeitos em áreas sensíveis ou o apoio à identificação de alvos de interesse, de acordo com estratégias definidas pelas forças de segurança.
Entre os módulos descritos na ampliação está a leitura automática de placas, realizada por câmeras com tecnologia OCR. As placas captadas são cruzadas em tempo real com bases nacionais, o que pode gerar alertas quando há compatibilidade com registros como roubo, furto ou restrições associadas a ocorrências. Outra frente é o reconhecimento facial, que, segundo a SSP-DF, opera com integração a bases de mandados de prisão, permitindo a emissão de alertas e o envio de informações de localização para verificação em campo.
A modernização também alcança as centrais 190 e 193. De acordo com as informações divulgadas pelo governo, o atendimento passou a utilizar geolocalização via celular com maior precisão, com preenchimento automático de dados de localização e envio de protocolo por mensagem, além de integração com sistemas e plataformas capazes de receber informações de localização em situações de emergência. A proposta, conforme a secretaria, é reduzir o tempo de resposta e apoiar o despacho de equipes com dados mais consistentes.
A SSP-DF afirma que a expansão do sistema considera relatórios de análise de criminalidade, que indicam áreas de maior incidência, além de variáveis como relevância estratégica, viabilidade técnica e validação por autoridades policiais locais. A secretaria também informa que o tratamento de dados segue normas aplicáveis ao poder público e as exigências de proteção de dados, com controle de acesso e segregação de informações. Na prática, parceiros compartilham suas imagens para fins de segurança pública, mas não acessam imagens de outros integrantes nem o conteúdo integral do sistema, mantendo a delimitação de permissões e responsabilidades.