por Elsânia Estácio

O Dia Internacional da Mulher, celebrado anualmente em 8 de março, representa mais do que uma data simbólica no calendário. O momento marca uma trajetória histórica de mobilização feminina por direitos, igualdade de oportunidades e respeito.
Oficializada pela Organização das Nações Unidas em 1975, a data tem origem ligada aos movimentos trabalhistas e feministas do fim do século XIX e do início do século XX, quando mulheres passaram a se organizar para reivindicar melhores condições de trabalho, participação política e reconhecimento social.
Mais de um século depois, o 8 de março continua sendo um marco de reflexão sobre avanços e desafios. Apesar de conquistas importantes, como o direito ao voto e a ampliação da participação feminina no mercado de trabalho, ainda persistem desigualdades estruturais. Mulheres continuam enfrentando barreiras para alcançar posições de liderança, desigualdade salarial e situações de violência de gênero que exigem respostas institucionais e sociais.
Além disso, mesmo representando mais da metade da população, as mulheres ainda ocupam parcela reduzida dos cargos de liderança e dedicam, em média, mais horas semanais às tarefas domésticas do que os homens, realidade que impacta diretamente sua participação plena no mercado de trabalho e na vida pública.
Nesse contexto, o trabalho de profissionais que atuam diretamente no fortalecimento da autonomia feminina ganha ainda mais relevância. Em Águas Claras, advogadas, psicóloga, empresária e fotógrafa desenvolvem iniciativas que impactam a vida de outras mulheres e ampliam debates importantes dentro da comunidade.

“Com o tempo, entendi que ter uma carteira da OAB não significava apenas exercer uma profissão. Significava ter nas mãos a possibilidade real de transformar vidas”, afirma Giuliane Dias de Pádua.

Direito e defesa de famílias atípicas
A advogada Giuliane Dias de Pádua, que atua no Direito da Saúde e preside a Comissão de Direito da Pessoa com Autismo da OAB/DF, subseção de Águas Claras, encontrou na defesa das famílias atípicas o propósito de sua carreira. Ao longo de sua trajetória, passou a atender mães que buscavam orientação jurídica após enfrentarem negativas de tratamentos e dificuldades para garantir direitos básicos para seus filhos. Segundo Giuliane, essa realidade revelou a dimensão humana da advocacia.
Em seu cotidiano profissional, ela acompanha de perto a jornada de mães que lutam para garantir terapias, inclusão e atendimento adequado para crianças autistas. A advogada destaca que muitas dessas mulheres assumem praticamente sozinhas a responsabilidade pela defesa dos direitos dos filhos. “Costumo dizer que essas mães se tornam verdadeiras leoas. Mesmo diante do cansaço e das dificuldades, seguem lutando diariamente para garantir que seus filhos tenham acesso ao tratamento adequado e ao respeito aos seus direitos”, relata.

“O Brasil avançou muito no campo legislativo, mas o grande desafio ainda é transformar essas normas em proteção efetiva. É preciso garantir acesso à Justiça e que as instituições estejam preparadas para acolher essas mulheres”, explica Andrea Quadros.

Fortalecimento feminino na advocacia
Também na área do Direito, a advogada Amanda Larysse Pessoa preside a Comissão da Mulher Advogada da OAB/DF em Águas Claras. A comissão atua na promoção da participação feminina na advocacia e no debate público sobre direitos e igualdade de gênero.
Para Amanda, ampliar a presença das mulheres em espaços institucionais é essencial para fortalecer a representatividade e contribuir para decisões mais equilibradas.
Entre as iniciativas desenvolvidas estão encontros, palestras e debates voltados ao desenvolvimento pessoal e profissional das advogadas, com temas como liderança, perfil comportamental e preparo emocional. Segundo ela, o objetivo é incentivar que mais mulheres se sintam preparadas para ocupar posições de destaque.
“Queremos contribuir para que cada vez mais mulheres estejam seguras e qualificadas para ocupar os espaços que desejarem, seja na advocacia, na vida pública ou em posições de liderança”, destaca.

“Vejo diariamente mulheres funcionando no modo ‘dar conta’, mas completamente desconectadas do próprio cansaço e do próprio corpo”, observa Laynara Célia Paiva.

Neste mês, a subseção da OAB Águas Claras promove uma edição especial do projeto Quinta Conecta, no dia 26 de março. A programação reúne profissionais convidadas para compartilhar experiências e reflexões sobre carreira e liderança, incluindo a participação da especialista em perfil comportamental Jéssica Bjaije. O evento é gratuito e aberto para advogadas, estudantes e público em geral.
Para Amanda, fortalecer redes de troca e aprendizado também faz parte da transformação social. “Durante muito tempo, muitos ambientes de decisão foram estruturados sem a presença feminina. Quando uma mulher ocupa um espaço, ela abre caminhos e inspira outras a fazerem o mesmo”, conclui.

“Na gestão condominial lidamos diariamente com pessoas e interesses diferentes. Saber ouvir, dialogar e buscar soluções equilibradas faz toda a diferença”, ressalta Juliana Domiciano Moura.

Acesso à Justiça e enfrentamento da violência
A advogada e relações-públicas Andrea Quadros acompanha de perto situações que afetam diretamente a vida de mulheres na região.
Grande parte das demandas que chegam ao seu escritório envolve casos de violência doméstica e seus desdobramentos jurídicos, como divórcios, pedidos de pensão, guarda de filhos e medidas protetivas.
Para ela, embora o Brasil possua uma legislação robusta de proteção às mulheres, ainda existem obstáculos importantes para que esses direitos se tornem realidade no cotidiano.
Andrea também destaca que a dependência financeira e emocional ainda é uma barreira significativa para muitas vítimas. “A violência psicológica muitas vezes mantém mulheres silenciadas. Elas têm dificuldade de reconhecer o abuso ou de encontrar apoio para romper aquele ciclo”, afirma.
Diante desse cenário, a advogada reforça a importância da autonomia feminina. “Aprendam a se amar e a se bastar. Fortalecer a autonomia emocional e financeira é fundamental para que nenhuma mulher permaneça em um lugar onde é desrespeitada”, ressalta.

“Mais do que produzir uma foto bonita, minha intenção é construir uma imagem com propósito, que represente aquela pessoa de forma verdadeira e comunique algo sobre sua trajetória”, diz Sarah Caroline.

Saúde mental e sobrecarga feminina
No campo da saúde mental, a psicóloga clínica Laynara Célia Paiva observa que muitas mulheres chegam ao consultório do Espaço Casulo emocionalmente sobrecarregadas. Questões relacionadas a relacionamentos, autoestima e pressão social estão entre os temas mais recorrentes.Segundo ela, a tentativa de dar conta de múltiplos papéis acaba gerando esgotamento emocional.
Laynara afirma que muitas mulheres foram educadas para priorizar o cuidado com os outros, deixando o próprio bem-estar em segundo plano. “Existe uma associação inconsciente entre amor e autoabandono. Muitas acreditam que, para cuidar do outro, precisam se abandonar”, diz.
Para ela, o processo terapêutico pode ajudar a reconstruir essa relação consigo mesma. “A terapia oferece algo que muitas mulheres nunca tiveram: um espaço onde elas não precisam sustentar ninguém. É um lugar para compreender padrões, fortalecer limites e aprender a se posicionar com clareza”, afirma.
Empreendedorismo e liderança feminina
A empresária e síndica profissional Juliana Domiciano Moura construiu uma trajetória marcada pelo empreendedorismo e pela busca por autonomia profissional. Ela conta que começou a trabalhar ainda muito jovem, aos 14 anos, experiência que contribuiu para desenvolver responsabilidade, disciplina e independência.
A atuação na gestão condominial surgiu quando assumiu o cargo de síndica no condomínio onde morava. Foi nesse momento que percebeu habilidades para liderança, mediação de conflitos e organização administrativa, o que a levou a profissionalizar a atividade e transformá-la em um negócio estruturado.
Hoje, à frente de uma empresa de gestão condominial, Juliana destaca que a liderança exige preparo constante e capacidade de diálogo.
Além da atuação empresarial, Juliana também realiza palestras em escolas, incentivando jovens, especialmente meninas, a acreditarem em seu potencial e desenvolverem visão empreendedora. Para ela, a presença feminina em espaços de liderança tem papel importante na construção de novas referências.
“Quando uma mulher decide acreditar em si mesma, ela não transforma apenas a própria vida. Ela abre caminho para que muitas outras também tenham coragem de sonhar e realizar”, conclui.

Identidade, imagem e autoestima
A valorização da trajetória feminina também está presente no trabalho da fotógrafa e estrategista de marketing Sarah Caroline, proprietária da Union Publicidade e Fotografia. Atuando com fotografia estratégica e posicionamento de imagem, ela busca retratar histórias e fortalecer a forma como as mulheres enxergam a si mesmas.
Antes de cada ensaio, Sarah procura compreender a história de quem está sendo fotografada.
Segundo ela, muitos ensaios acabam se tornando momentos marcantes de transformação pessoal. “Muitas mulheres chegam inseguras, achando que não são fotogênicas ou que não vão gostar das fotos. Quando se veem depois, com uma nova percepção sobre si mesmas, isso se torna muito significativo”, relata. Para a fotógrafa, registrar trajetórias também é uma forma de valorizar histórias.