Por Aline Diniz
O aumento da circulação de patinetes elétricos, bicicletas e outros equipamentos de mobilidade individual nas calçadas de Águas Claras tem preocupado moradores. Embora sejam considerados uma alternativa moderna e sustentável para os deslocamentos urbanos, o uso inadequado dos veículos tem provocado situações de risco e aumentado a sensação de insegurança entre os pedestres.
Os relatos reunidos pela reportagem envolvem circulação em alta velocidade, tráfego na contramão, transporte de crianças e animais, uso do mesmo equipamento por mais de uma pessoa, manobras perigosas e estacionamento em locais que dificultam a passagem. Os moradores também apontam a falta de conscientização de parte dos usuários e defendem maior fiscalização por parte da empresa responsável e do poder público.

Riscos nas calçadas
Tatiana Felix, moradora de Águas Claras e uma das administradoras do grupo Mães Amigas DF, afirma que os problemas são observados desde a chegada dos patinetes compartilhados à cidade. Segundo ela, as campanhas educativas ainda são insuficientes e muitos usuários desconhecem os locais adequados para circular.
“Desde o início da instalação, algumas coisas têm acontecido. Não há campanhas suficientes de conscientização e muita gente não sabe onde deve transitar com esses veículos”, afirma. Para Tatiana, as situações que mais chamam a atenção são a circulação em alta velocidade pelas calçadas, o tráfego na contramão e o transporte de mais de uma pessoa no mesmo equipamento.
A moradora relata ter vivido uma situação de risco na Praça do Sigma, quando um grupo de adolescentes passou pelo local em alta velocidade. Segundo ela, os jovens atropelaram um cachorro e esbarraram em seu corpo. “Quase caí. Se fosse um idoso, poderia ter sido muito grave”, recorda.
Tatiana considera que a população precisa aprender a conviver com a nova modalidade de transporte, mas avalia que essa adaptação deve ser acompanhada de regras claras, fiscalização permanente e campanhas educativas. Ela também defende que os responsáveis sejam comunicados quando menores de idade forem flagrados utilizando os equipamentos de maneira imprudente.
“Precisamos nos adaptar à modernidade, mas deveriam existir regras, campanhas de conscientização e fiscalização. No caso dos menores, os pais também deveriam ser notificados. Seria uma espécie de ‘blitz do bem’”, sugere.
A moradora lembra ainda o caso de uma conhecida que caiu enquanto utilizava um patinete, sofreu traumatismo cranioencefálico e ficou desacordada. Tatiana também afirma já ter visto usuários transportando crianças, animais e várias sacolas de compras ao mesmo tempo. “Tudo isso desequilibra o condutor e aumenta o risco de acidentes”, observa.

Medo de atropelamentos
A moradora Helena Bezerra também acompanha os problemas desde que os patinetes começaram a circular em Águas Claras. Segundo ela, as ocorrências de uso inadequado têm se tornado mais frequentes, principalmente envolvendo adultos que transportam crianças, animais ou outros passageiros.
Embora nunca tenha presenciado um acidente grave, Helena afirma ter visto inúmeras manobras imprudentes e relata que quase foi atropelada. “Tenho medo de andar pelas calçadas com receio de ser atingida”, diz.
Outro problema apontado pela moradora é o estacionamento inadequado dos equipamentos. De acordo com Helena, patinetes são deixados com frequência em frente ao condomínio onde mora, bloqueando parcialmente a passagem de moradores e pedestres.
“Aqui na porta do meu bloco sempre deixam os patinetes atrapalhando a passagem”, relata. Para ela, a empresa responsável pelo serviço deveria reforçar o acompanhamento dos usuários e adotar algum tipo de penalidade nos casos em que crianças, animais ou outras pessoas sejam transportados de forma irregular.
O morador Anderson Freire afirma ter sido atingido por um patinete enquanto se recuperava de uma cirurgia na mão. Ele caminhava pela calçada quando o equipamento passou muito próximo e o guidão bateu em seu cotovelo, fazendo com que perdesse o equilíbrio.

“Quando cheguei em casa, vi que tinha ficado um grande hematoma”, conta. Anderson observa que o baixo nível de ruído dos equipamentos também dificulta a percepção dos pedestres. “Como eles têm motor elétrico e praticamente não fazem barulho, muitas vezes o pedestre não percebe que o patinete está chegando por trás”, explica.
Desde o episódio, ele afirma caminhar pelas calçadas em estado permanente de atenção. Para o morador, as campanhas educativas são importantes, mas precisam ser acompanhadas de fiscalização e de mudanças no comportamento dos usuários. “Sem fiscalização e sem mudança na mentalidade das pessoas, nenhuma medida educativa será suficiente”, avalia.
Grupos mais vulneráveis
A advogada e moradora de Águas Claras Letícia também demonstra preocupação com a maneira como parte dos usuários conduz os equipamentos. Segundo ela, a circulação em alta velocidade nas calçadas compromete diretamente a segurança dos pedestres, especialmente daqueles com menor capacidade de reação.
“Crianças, idosos e pessoas com mobilidade reduzida são os mais vulneráveis, pois possuem menor capacidade de reação em caso de colisão”, afirma. A advogada relata já ter presenciado usuários transportando mais de um passageiro e levando animais sobre os patinetes.
Na avaliação de Letícia, parte dos condutores desconhece ou simplesmente ignora as regras. Ela defende campanhas permanentes de conscientização em toda a cidade, com orientações sobre velocidade, locais permitidos para circulação e respeito aos pedestres.
Para a moradora, as empresas responsáveis precisam reforçar as informações fornecidas aos usuários, enquanto o poder público deve ampliar as ações educativas e a fiscalização da operação.
Limite nas
calçadas é de 6 km/h
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal informou que a operação dos patinetes elétricos compartilhados depende de autorização da pasta e deve seguir a Resolução nº 996/2023 do Conselho Nacional de Trânsito, a Lei Distrital nº 6.458/2019 e as demais normas vigentes.
Segundo a Semob, as regras são as mesmas em todas as regiões administrativas do Distrito Federal. Nas calçadas, os equipamentos podem circular desde que respeitem a velocidade máxima de 6 km/h, considerada compatível com o deslocamento dos pedestres. Em ciclovias, ciclofaixas e vias onde a circulação seja permitida, a velocidade máxima é de 20 km/h.
A empresa operadora, que em Águas Claras é a JET, deve acompanhar a utilização dos equipamentos e adotar as medidas previstas no contrato de credenciamento quando houver uso irregular. À Semob cabe fiscalizar o cumprimento das obrigações assumidas pela empresa autorizada.
A secretaria informou que denúncias e ocorrências são analisadas pela comissão gestora responsável pelo acompanhamento do serviço. Quando uma irregularidade é identificada, a operadora é acionada para realizar a apuração e tomar as providências cabíveis.
Sem registros oficiais
De acordo com a Semob, o relatório encaminhado pela operadora referente ao mês de junho não apresentou registros de acidentes ou incidentes envolvendo o serviço. A pasta também informou que, até o momento da resposta à reportagem, a Ouvidoria do Distrito Federal não havia recebido reclamações sobre patinetes em Águas Claras durante o ano de 2026.
Apesar da ausência de registros oficiais, a secretaria declarou que fará contato com a empresa responsável para verificar as situações relatadas pelos moradores. Caso sejam constatadas irregularidades, deverão ser adotadas as medidas previstas nas normas e no credenciamento da operadora.
A Semob orienta que acidentes, situações de risco e reclamações relacionadas ao serviço sejam registrados na Ouvidoria do Distrito Federal. As manifestações podem ser feitas pelo telefone 162 ou pela plataforma Participa DF, permitindo que os casos sejam oficialmente acompanhados e encaminhados aos responsáveis pela operação.






