Por Aline Diniz

Com o Parque Sul já implantado e o projeto executivo do Parque Central concluído, moradores de Águas Claras têm intensificado a cobrança por recursos e decisão política para que a área central seja finalmente executada. A pauta voltou ao centro das atenções com a exposição “Um DF Possível”, aberta na noite de 26 de fevereiro, na sede do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU/DF), ao incluir a proposta do Parque Central entre os projetos destacados pela curadoria.

Pressão por obras
O Parque Central é tratado por lideranças comunitárias como uma promessa antiga, presente desde a concepção urbanística de Águas Claras, idealizada pelo arquiteto Paulo Zimbres nos anos 1990, como espaço de convivência e de equilíbrio diante da intensa verticalização da região. Os parques Central e Sul receberam, de forma integrada, projeto paisagístico e executivo, mas apenas o Parque Sul saiu do papel, após pressão popular. A parte central segue pendente e é considerada, por moradores, uma dívida com a população local, estimada em mais de 142 mil pessoas.
A população lembra de compromissos assumidos desde 2015, quando a região passou a aguardar compensação ambiental ligada à mudança de gabarito e à desafetação de lotes públicos. Em 2017, a pedido da Terracap, foi realizado o Concurso Nacional de Projetos de Arquitetura e Paisagismo, organizado pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), para escolher o projeto do parque. O estúdio vencedor foi o Sidônio Porto Arquitetos Associados. Para entidades locais, o contraste entre a maturidade técnica do projeto, já concluído e aprovado, e a falta de destinação de recursos e apoio político ajuda a explicar por que as obras ainda não começaram.

UM DF POSSÍVEL
A mostra “Um DF Possível” é uma iniciativa do IAB/DF e reúne projetos desenvolvidos no Distrito Federal entre 2012 e 2022, com foco no papel dos concursos públicos de projeto como instrumento de qualificação do espaço urbano e de promoção do interesse coletivo. A exposição foi organizada em dois núcleos: um deles, identificado em azul, apresenta obras já concluídas e implantadas, acompanhadas de textos explicativos e registros fotográficos; o outro, marcado em marrom, reúne propostas consideradas potenciais, ainda não construídas, exibidas com descrições conceituais, plantas e desenhos. É nesse conjunto que aparece o Parque Central de Águas Claras, listado como obra com alto potencial de execução.
Copresidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) e uma das curadoras da exposição, Luíza Coelho ressaltou que a defesa dos concursos públicos de projeto é uma bandeira histórica da entidade. “O IAB é a entidade mais antiga da arquitetura no país, fundada em 1921, e desde a sua origem defende o concurso como forma de garantir qualidade arquitetônica, transparência e oportunidades para os profissionais”, afirmou.
Segundo a curadora, a proposta da exposição é recolocar o tema no centro do debate público e mostrar que muitos dos projetos apresentados já receberam investimentos significativos de tempo, recursos humanos e financeiros. “O que falta, em muitos casos, é alinhamento político para que esses projetos sejam executados. São propostas com enorme potencial de gerar impactos positivos para a população”, destacou. Luíza Coelho também chamou atenção para a importância da implantação de parques e espaços públicos fora do Plano Piloto, especialmente diante dos desafios impostos pelas emergências climáticas e pela necessidade de ampliar áreas verdes qualificadas em todo o Distrito Federal.

Lúcia Porto, responsável pelo paisagismo do projeto vencedor do Parque Central de Águas Claras, destacou na exposição “Um DF Possível” os quatro grandes arcos previstos para receber plantas trepadeiras, criando áreas de sombra e conforto térmico.

Projeto vencedor
Autores do projeto vencedor do concurso do Parque Central de Águas Claras, o arquiteto Sidônio Porto e a arquiteta e urbanista Lúcia Porto, responsável pelo paisagismo, apresentaram na abertura aspectos centrais da proposta. Segundo Lúcia Porto, o desenho foi pensado para promover fluidez e harmonia não apenas no interior do parque, mas também na relação com a cidade, com passarelas aéreas sobre a linha do metrô para travessia segura de pedestres e conexões em nível do solo integradas à lógica da mobilidade urbana.
Outro elemento de destaque são quatro grandes arcos previstos no projeto, destinados a receber plantas trepadeiras, com a intenção de criar áreas de sombra, conforto térmico e uma paisagem visualmente marcante. Sidônio Porto comentou ser de grande importância ver o projeto do Parque Central de Águas Claras integrando a exposição “Um DF Possível” e também reconheceu ser fundamental o papel dos concursos públicos na construção de cidades mais qualificadas e inclusivas.

Sidônio Porto, autor do projeto vencedor do concurso do Parque Central de Águas Claras, esteve na abertura da exposição “Um DF Possível”, que reúne propostas de concursos públicos no DF.

De forma complementar, Sidônio explicou que a concepção paisagística dos parques Central e Sul de Águas Claras seguiu premissas adotadas pelo escritório em grandes áreas públicas, em consonância com o edital do concurso. O projeto foi desenhado para “criar espaços e paisagens”, reunindo equipamentos de lazer como áreas de estar, trilhas, pistas de skate e patinação, quadras esportivas e um anfiteatro aberto, integrados a amplas áreas paisagísticas.
Sidônio Porto destacou que a vegetação especificada é originária do Cerrado, permitindo ao usuário “o acesso ao conhecimento e à vivência da vegetação original”, além de favorecer a integração com a fauna local. Para o arquiteto, a implantação do parque representa equilíbrio urbano em uma região marcada por edificações de grande porte e, “Uma vez implantado, o parque aumentará significativamente a qualidade de vida dos moradores e criar um diferencial urbanístico para Águas Claras”.