Por Aline Diniz
A presença de animais de estimação nas residências de Águas Claras tem se tornado cada vez mais marcante. Em uma região conhecida pela grande quantidade de prédios e pela alta densidade populacional, cães e gatos passaram a fazer parte do cotidiano das famílias e da paisagem urbana, seja nos passeios por ruas e parques, seja dentro dos próprios condomínios.
O movimento acompanha uma mudança de comportamento que vem se consolidando nos últimos anos. Os pets deixaram de ocupar um papel secundário para se tornarem parte central da vida doméstica. Para muitos moradores, representam companhia, apoio emocional e até um novo formato de família.

Perfil urbano
Para Marina Colatino, o crescimento do número de pets em Águas Claras é perceptível no dia a dia da profissão. “Atuo como médica-veterinária em Águas Claras e regiões próximas e posso afirmar que é uma das regiões em que mais observo a inclusão e o crescimento de pets. É uma tendência que vem aumentando há alguns anos, mais especificamente na última década”, afirma.
Segundo ela, o perfil dos moradores da cidade ajuda a explicar o fenômeno. “Pessoas que moram sozinhas, casais sem filhos ou famílias menores, principalmente com um perfil mais jovem e urbano, encontram no animal uma fonte importante de companhia e apoio emocional”, explica.
A configuração dos apartamentos também influencia no tipo de animal mais comum nos lares da região. “Atendo principalmente animais de pequeno porte. Gatos e raças de cães como shih-tzu, spitz alemão, maltês, yorkshire e pinscher estão entre as mais procuradas. Por serem menores, se adaptam melhor a espaços pequenos, como apartamentos”, observa a veterinária.
Apesar dos benefícios, o crescimento da população de animais também exige cuidados. A veterinária chama atenção para problemas de saúde e de comportamento que têm se tornado mais frequentes em ambientes urbanos. “Na correria do dia a dia, muitos tutores acabam deixando os animais muito tempo sozinhos em espaços pequenos. Isso pode levar à síndrome da ansiedade de separação, um transtorno comportamental que causa estresse intenso no animal, com latidos excessivos, destruição de objetos e alterações no comportamento”, explica.

Cuidados necessários
Outro ponto de atenção envolve doenças que podem se espalhar com facilidade em áreas com grande circulação de pets. “Existe uma incidência significativa de giardíase, uma parasitose intestinal causada pelo protozoário Giardia duodenalis. Ela pode se disseminar quando os tutores não recolhem as fezes durante os passeios, facilitando a transmissão inclusive para humanos, já que se trata de uma zoonose”, alerta.
Ela ressalta que alguns cuidados ainda são negligenciados por parte dos tutores. “Muitos ainda não fazem regularmente a vermifugação, o controle de pulgas e carrapatos, o protocolo vacinal e as visitas periódicas ao veterinário. Além disso, o manejo ambiental inadequado pode contribuir para problemas de saúde física e mental dos animais e também da população.”
Para Marina, cidades com grande número de pets trazem benefícios, mas também exigem responsabilidade coletiva. “Os animais ajudam a melhorar a saúde mental das pessoas, reduzem o estresse e estimulam hábitos saudáveis, como caminhadas e interação social. Por outro lado, também surgem desafios relacionados à convivência, aos barulhos, ao uso de áreas comuns e à circulação de animais sem guia”, pontua.
Laiza Reis reforça que a presença de pets nas famílias da cidade é bastante expressiva. “Na minha experiência clínica, percebo que esse crescimento vem acontecendo ao longo dos últimos anos e se intensificou ainda mais recentemente, especialmente durante a pandemia. Cada vez mais os pets fazem parte da estrutura familiar e da rotina das pessoas”, afirma.
Laiza observa que, além dos cães, o número de gatos também tem aumentado entre os moradores. “Tenho visto um crescimento significativo no número de tutores optando por felinos, justamente porque eles se adaptam muito bem a ambientes internos.”
Entre os problemas mais comuns nos atendimentos clínicos estão questões relacionadas ao estilo de vida urbano dos animais. “Sobrepeso, ansiedade e alguns distúrbios comportamentais aparecem com frequência, muitas vezes ligados à falta de estímulos físicos e mentais. Por isso trabalhamos muito com medicina preventiva e com estratégias que envolvem ambiente equilibrado, alimentação adequada e atividades para o animal”, explica.

A veterinária também destaca que os tutores estão cada vez mais atentos à qualidade de vida dos pets. “Hoje vemos claramente que os animais são considerados membros da família. Existe uma preocupação maior com alimentação, saúde e bem-estar.”
Convivência nos condomínios
O impacto desse crescimento também é percebido na rotina dos condomínios da cidade. Kenia Ribeiro afirma que a presença de animais aumentou significativamente nos prédios da região nos últimos anos. “Principalmente na pandemia e no pós-pandemia, a quantidade de pets nos condomínios cresceu consideravelmente. A gente percebe isso no trânsito dos animais com os moradores e também nas demandas relacionadas à convivência”, relata.
Segundo ela, as principais questões envolvem a circulação dos animais e o barulho. “Ainda temos tutores que insistem em andar no elevador ou nas áreas comuns com os cães sem guia ou com guias muito longas. Eles alegam que o animal é manso, mas existem moradores que têm resistência ou até medo”, explica.
Outro problema recorrente envolve animais que ficam sozinhos por longos períodos. “Às vezes, o tutor sai e o pet fica latindo, uivando ou chorando, arranhando portas e causando barulho. Muitas vezes o dono nem sabe que isso está acontecendo.”
Apesar dos desafios, a síndica observa que muitos condomínios vêm se adaptando à nova realidade. “Hoje existe uma consciência maior de condomínios pet friendly. Alguns estão estudando criar áreas específicas para os animais e outros oferecem até saquinhos para que os tutores recolham os dejetos durante os passeios.”
Ela ressalta que os pets passaram a ter um papel central na vida dos moradores. “Os animais hoje são considerados membros da família e isso influencia inclusive a dinâmica do condomínio. Muitas pessoas os veem como filhos.”
Para Kenia, a cidade vive um momento de adaptação. “Águas Claras tem muitos espaços preparados para os pets, com passeadores, adestradores e lojas especializadas. Mas ainda existem desafios, como pessoas que não recolhem as fezes ou deixam os animais soltos em locais inadequados.”
Estrutura e mercado
Por fim, Ana Prestes confirma que o fenômeno é evidente na prática hospitalar.
Ana destaca que Águas Claras possui estrutura favorável para quem tem animais. “A cidade conta com parques, áreas verdes, clínicas veterinárias e pet shops, o que facilita bastante o cuidado com os pets. Como tutora, percebo que essa estrutura contribui para a qualidade de vida dos animais e de seus donos.”
Os relatos apontam para uma transformação no perfil da cidade. Em Águas Claras, os pets deixaram de ser apenas companhia e passaram a integrar de forma cada vez mais evidente a dinâmica familiar. O movimento também influencia a oferta de serviços e ajuda a moldar novas formas de convivência urbana.






