por Patricia Rebelo

Quando chegou a Águas Claras, em 2008, Ana Paula Leite encontrou uma cidade muito diferente da que existe hoje. As ruas ainda estavam em formação, faltavam serviços, a organização urbana era limitada e muitos moradores acompanhavam de perto o crescimento acelerado da região. Mesmo diante desse cenário, ela enxergava algo promissor.
Para quem nasceu e cresceu na Ceilândia P Sul, a mudança representava mais do que apenas trocar de endereço. Morar em Águas Claras significava viver uma realidade que, durante muito tempo, parecia distante. O acesso ao metrô, a possibilidade de morar em apartamento e a sensação de mobilidade e estrutura davam à mudança um significado especial. “Parecia um upgrade de vida”, resume.

O sentimento de conquista marcou o início da relação de Ana Paula com a cidade. Mas, junto com as oportunidades, veio também a percepção de que a dinâmica urbana dos condomínios criava uma rotina mais isolada entre os moradores.
Acostumada à convivência próxima da Ceilândia, onde as relações aconteciam nas calçadas, nas conversas entre vizinhos e na vida comunitária intensa, ela sentia falta de conexões humanas mais espontâneas em Águas Claras.
Foi justamente dessa percepção que surgiram as primeiras ideias que mais tarde dariam origem ao Mães Amigas.
Filha de uma copeira e de um caminhoneiro, Ana Paula afirma que boa parte da sua formação pessoal veio da convivência com a avó, uma benzedeira conhecida por ajudar diariamente pessoas que buscavam apoio espiritual e acolhimento.
Segundo ela, cresceu observando a importância da solidariedade e da escuta. “Minha avó recebia milhares de pessoas em casa e ajudava todo mundo sem esperar nada em troca”, relembra.
Casada e mãe de quatro filhas, Ana Paula descreve a própria rotina como uma sequência constante de desafios, ideias e tentativas de crescimento pessoal e profissional. Ela afirma que sempre gostou de apoiar pessoas e acredita que conexões verdadeiras conseguem transformar comunidades.

A construção do Mães Amigas
A criação do Mães Amigas de Águas Claras nasceu da necessidade de aproximar mulheres que viviam situações parecidas dentro da cidade. A ideia inicial era simples: criar uma rede de apoio para troca de informações, dicas, experiências e acolhimento.
O projeto começou de forma pequena, mas rapidamente encontrou identificação entre mães que também buscavam espaços de convivência e apoio no cotidiano.
As redes sociais tiveram papel fundamental nesse crescimento. Os grupos de WhatsApp, as divulgações online e os encontros presenciais começaram a fortalecer uma comunidade que ultrapassava o ambiente virtual.
Com o tempo, o grupo passou a reunir não apenas mães, mas famílias inteiras, pequenos empreendedores, comerciantes locais e participantes de projetos sociais.
Ana Paula conta que um dos momentos em que percebeu a força do movimento aconteceu após divulgar uma hospedagem em Maragogi nas redes do grupo. Pouco tempo depois, recebeu uma ligação do proprietário agradecendo pelo aumento das reservas geradas pelas publicações.
“Ali eu entendi o tamanho do nosso alcance”, afirma.
A partir desse crescimento, o projeto deixou de se restringir apenas a Águas Claras e passou a receber demandas de outras regiões administrativas, ampliando sua atuação e adotando o nome Mães Amigas do DF.
Ao longo dos anos, a rede participou de dezenas de ações comunitárias e eventos voltados para integração social. Entre eles estão cursos para gestantes, festivais gastronômicos, bazares solidários, campanhas beneficentes, apoio a famílias em situação de vulnerabilidade e até casamento coletivo.
Ana Paula destaca que um dos aspectos mais gratificantes da trajetória é acompanhar o crescimento de empreendedores que começaram divulgando pequenos trabalhos dentro do grupo e hoje possuem negócios consolidados.
“É bonito ver pessoas prosperando e criando oportunidades a partir das conexões que nasceram ali”, comenta.

Para Ana Paula, o sucesso do Arraiá de Águas Claras está justamente na capacidade de aproximar pessoas em uma cidade marcada pelo ritmo acelerado da vida urbana.

Mobilização comunitária e identidade local
A atuação dentro do Mães Amigas acabou levando Ana Paula também para outras pautas relacionadas ao cotidiano de Águas Claras. Questões ligadas à segurança, infraestrutura, trânsito e qualidade de vida passaram a fazer parte das discussões levantadas pela comunidade.
Segundo ela, muitas vezes foi necessário buscar apoio diretamente com lideranças políticas e órgãos públicos para apresentar demandas da população.

O arraiá que virou tradição
Entre os projetos que ganharam maior visibilidade está o Arraiá de Águas Claras, criado em 2016. A primeira edição aconteceu no pátio de uma escola da Avenida Jequitibá e, de acordo com Ana Paula, a adesão surpreendeu os organizadores.
“Havia fila na porta. Todo mundo queria participar de uma festa feita de família para família”, relembra.
Com o crescimento do público, o evento passou a ser realizado na Uniplan e se consolidou como uma das principais festas comunitárias da cidade. O arraiá reúne famílias, idosos, crianças e moradores de diferentes regiões administrativas em torno de apresentações culturais, gastronomia e convivência.
Ela afirma que os principais desafios da mobilização comunitária continuam sendo a dificuldade de comunicação com toda a população e a falta de recursos para ampliar alguns projetos sociais.
Mesmo assim, prefere definir sua trajetória de forma simples, acreditando no que chama de “trabalho de sementinha”. Segundo ela, os resultados foram muito maiores do que imaginava no início.
Hoje, ao olhar para a história construída ao longo dos últimos anos, Ana Paula considera que o maior legado do Mães Amigas é mostrar que relações humanas continuam sendo fundamentais para fortalecer a vida comunitária.
“O projeto nasceu para ajudar pessoas e criar conexões reais. Somos mães comuns, com rotinas, desafios e sonhos, mas decidimos dedicar parte do nosso tempo para construir algo coletivo. Quando mulheres se apoiam, coisas grandes e bonitas acontecem”, afirma.