Ao longo de 2025, mais de 4,8 mil mulheres em situação de violência buscaram apoio nos Centros Especializados de Atenção às Pessoas em Situação de Violência (Cepavs), segundo balanço divulgado até outubro. Com 18 unidades distribuídas pelas regiões administrativas, os centros integram a chamada Rede de Flores, que promove atendimento biopsicossocial e encaminhamentos para serviços especializados.
Acolhimento transforma histórias e amplia consciência
Relatos de mulheres atendidas mostram como o acesso a essa rede tem sido essencial para romper ciclos de abuso e violência. No Cepav de Santa Maria, uma usuária revelou que, após sofrer tentativa de abuso por parte do padrasto, encontrou apoio ao ser encaminhada por seu psicólogo. “Conversei com a assistente social, fiz sessões individuais e depois entrei para o grupo. A gente se fortalece, aprende sobre direitos e descobre que não está sozinha”, relata.
Outra mulher, encaminhada por uma colega de trabalho, procurou o serviço para tratar traumas do passado, mas descobriu que também vivia um relacionamento abusivo no presente. “Com o tempo, fui percebendo sinais de violência psicológica e patrimonial no meu casamento. Se não tivesse buscado ajuda, talvez nem estivesse viva”, afirma.
O Cepav funciona como porta de entrada segura para quem enfrenta situações de violência. Segundo o chefe do centro em Santa Maria, Ronaldo Lima Coutinho, os atendimentos ocorrem por demanda espontânea ou por encaminhamento interno das unidades de saúde. O serviço está disponível de segunda a sexta, das 7h às 18h. “Nosso foco é acolher, ouvir e fortalecer. Aqui, não apontamos culpados, cuidamos da saúde mental e emocional para que a pessoa possa tomar decisões com autonomia”, explica.
Cada unidade tem nome próprio dentro da Rede de Flores. Em Santa Maria, o centro se chama Flor do Cerrado e funciona no Hospital Regional da cidade. A equipe multidisciplinar é composta por enfermeira, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem e administrativos.

Ronaldo Lima Coutinho: “Qualquer pessoa que passou por violência e precisa desse acolhimento pode vir nesse horário. Estamos aqui para receber”

Trabalho integrado
A atuação dos Cepavs é articulada com outros órgãos e instituições, como Delegacias da Mulher (DEAMs), Delegacias da Criança e do Adolescente, Conselhos Tutelares, Cras, Creas, Caps, escolas, Ministério Público, TJDFT e diversas organizações da sociedade civil.
Segundo Guaia Monteiro Siqueira, chefe substituta do Núcleo de Prevenção e Assistência à Situação de Violência (Nupav), essa articulação tem sido essencial para garantir respostas mais efetivas. “Capacitamos equipes de saúde e da rede externa, discutimos casos em conjunto e ativamos imediatamente o Conselho Tutelar quando necessário. Tudo é pensado em rede”, destaca.
A assistente social Jasmin e Margarida, do Cepav Alecrim, reforça que o foco é garantir a continuidade do atendimento e o fortalecimento da vítima. “Trabalhamos com escuta qualificada e orientação. Nossa missão é prevenir e apoiar”.
O Cepav Jasmim, especializado em acolher crianças vítimas de abuso sexual e também ofensores, aposta no atendimento em grupo como forma de promover a conscientização familiar. Segundo a psicóloga Neulabihan Mesquita, “os grupos ajudam porque as famílias se reconhecem, se apoiam e passam a lidar com a situação de forma coletiva e estruturada”.
Para o presidente do IgesDF, Cleber Monteiro, o sucesso dos Cepavs está na atuação conjunta dos diferentes setores públicos. “Proteger vítimas de violência exige integração entre saúde, assistência social, justiça e comunidade. Cada atendimento precisa ser visto como uma oportunidade de mudar um destino”, afirma.
O avanço da rede também representa um passo importante no enfrentamento à subnotificação. “Muitas mulheres ainda silenciam por medo, vergonha ou dependência financeira. A existência de espaços como os Cepavs ajuda a romper esse silêncio”, completa Ronaldo Coutinho. Com acolhimento, informação e rede de apoio, o Distrito Federal busca ampliar cada vez mais o acesso a um atendimento digno e transformador para mulheres e famílias em situação de violência.