Por Aline Diniz

Viajar de metrô pode significar, para muitas mulheres, mais do que simplesmente chegar ao destino. Em meio à rotina de trabalho, estudos e deslocamentos entre Águas Claras e o Plano Piloto, o transporte público também envolve uma preocupação que não aparece nos horários oficiais das viagens: a segurança.


É nesse contexto que o carro exclusivo para mulheres ocupa espaço importante na rotina de muitas passageiras. A medida é considerada necessária pelas usuárias ouvidas pela reportagem, mas os relatos mostram que sua existência, isoladamente, não elimina problemas como entrada irregular de homens, assédio, superlotação e falhas na fiscalização.
A Carta de Serviços ao Cidadão do Metrô-DF estabelece que o primeiro carro de cada trem é destinado exclusivamente a mulheres e pessoas com deficiência durante toda a operação. Os demais são de uso misto, e o acesso ao espaço reservado é indicado por sinalização nas plataformas.

Amanda Peixoto, que trabalha em Águas Claras e utiliza frequentemente o transporte público, afirma que prioriza o carro destinado às mulheres porque se sente mais confortável no espaço. “Eu sempre priorizo o vagão feminino. Tenho o costume de utilizar ônibus e metrô e posso dar a certeza de que o vagão exclusivo é o único lugar em que me sinto confortável. Quando uso o vagão normal é porque estou com amigos do sexo masculino, nunca uso sozinha. E mesmo quando estou com amigos, não me sinto 100% segura.”

Espaço reduz sensação de vulnerabilidade
Profissional da área de comunicação e marketing e usuária frequente do sistema, Aline Heringer costuma escolher o carro exclusivo quando viaja sozinha. Para ela, a possibilidade de reduzir por alguns minutos o estado de alerta vivido pelas mulheres é uma das principais vantagens da medida.
Aline utiliza o metrô em diferentes horários, inclusive nos períodos de pico, e afirma que a sensação de segurança muda dentro do espaço reservado. A experiência, entretanto, nem sempre corresponde ao que determina a regra. Ela já presenciou homens entrando no carro exclusivo e situações em que as próprias passageiras precisaram pedir que eles deixassem o local.
Segundo Aline, o WhatsApp disponibilizado pelo Metrô-DF pode agilizar a presença dos agentes quando a ocorrência é comunicada. Em várias situações, relata, seguranças apareceram uma ou duas estações depois da denúncia. O atendimento, porém, nem sempre acontece antes do fim da viagem. “Já mandei mensagem e cheguei ao destino final sem ninguém aparecer”, conta.
Amanda Peixoto, que trabalha em Águas Claras e utiliza com frequência as estações da região, também prioriza o carro feminino. Segundo ela, nos demais vagões prefere estar acompanhada de amigos e ainda assim nem sempre se sente totalmente segura.
Para Amanda, o espaço reservado representa uma proteção importante diante do risco de assédio no transporte coletivo. Ao mesmo tempo, a passageira avalia que a exclusividade do carro não resolve todos os problemas encontrados durante a viagem, especialmente nos horários de maior movimento.

Aline Heringer, profissional da área de comunicação e marketing e usuária frequente do metrô, diz que escolhe o carro exclusivo principalmente quando viaja sozinha. “O próprio fato de existir o vagão feminino já é positivo, é um espaço onde, na maior parte das vezes, a gente consegue viajar sem o alerta constante. Mas o que tornaria essa experiência realmente completa seria somar isso a mais frequência de trens, mais assentos disponíveis e a presença fixa de segurança nas plataformas, para que a proteção não dependa só da reação das próprias mulheres ou de uma denúncia que às vezes não chega a tempo.”

Superlotação amplia desconforto
A sensação de segurança não depende apenas da presença ou ausência de homens no carro exclusivo. As entrevistadas apontam a superlotação como outro problema frequente, principalmente nos períodos de pico.
Aline defende maior frequência dos trens e presença de agentes nas plataformas. “Acho que a solução passa por dois pontos: mais frequência de trens, mais composições circulando e fiscalização presencial nas plataformas, não só reativa via WhatsApp.”
Amanda relata que a quantidade de passageiros pode tornar a viagem especialmente desconfortável. Ela afirma já ter presenciado desmaios dentro do sistema e também ter passado pela situação. Segundo a passageira, o calor e o pouco espaço nas composições agravam o problema.
A preocupação ocorre em um sistema que registrou episódios recentes de alterações operacionais com reflexos em Águas Claras. Em 20 de agosto de 2026, uma falha de sinalização fez passageiros que seguiam de Samambaia para a Estação Central desembarcarem em Águas Claras, aumentando a lotação e alterando o fluxo durante um período de grande movimento.
Em maio de 2024, uma falha no compressor de um trem na Estação Águas Claras também levou à retirada de uma composição de circulação e ampliou a lotação no horário de pico.
O movimento da estação ajuda a dimensionar o impacto dessas ocorrências. Dados divulgados pelo Governo do Distrito Federal colocam Águas Claras entre as estações de maior fluxo do sistema, com registro de 262.352 usuários em um mês no levantamento citado.
A estação também ocupa posição estratégica na rede, por estar no ponto em que o eixo principal se divide nos ramais em direção a Ceilândia e Samambaia. Alterações operacionais naquele trecho, portanto, podem ter reflexos sobre passageiros de diferentes regiões do Distrito Federal.

Fiscalização cabe à segurança do Metrô
Procurado pela reportagem, o Metrô-DF informou que realiza campanhas de orientação sobre o uso correto do carro exclusivo desde 2015. Segundo a companhia, a maior divulgação das regras também contribuiu para aumentar o número de reclamações relacionadas ao descumprimento da norma.
A fiscalização, de acordo com a empresa, é responsabilidade do Corpo de Segurança Operacional. Quando um homem que não se enquadra nas situações previstas entra no carro exclusivo, os agentes realizam inicialmente uma abordagem educativa. “Quando há flagrante de desrespeito, o usuário é informado quanto às regras de uso do carro exclusivo e é convidado para se dirigir a outro carro do trem e, se houver resistência, ele é retirado do carro, podendo ser encaminhado à Delegacia de Polícia e responder por crime de desobediência”, informou a companhia.
Nos casos de importunação sexual, o Metrô-DF afirma possuir procedimento específico para atendimento às vítimas, com funcionários treinados para priorizar as ocorrências. Segundo a empresa, a vítima é conduzida para um local seguro, pode receber primeiros socorros e é orientada sobre as providências possíveis, incluindo atendimento hospitalar e registro policial.
Em situação de flagrante, acrescenta a companhia, os agentes podem prender o autor e encaminhá-lo à autoridade policial.
O sistema mantém canais para denúncias pelo aplicativo Metrô Conecta, Ouvidoria, Participa DF e WhatsApp, no número (61) 99265-1178. Segundo o Metrô-DF, o aplicativo também permite o envio de ocorrências diretamente à segurança metroviária.

Proteção além do vagão
Apesar dos problemas apontados, as duas passageiras ouvidas pela reportagem defendem a manutenção do carro exclusivo. Na avaliação delas, o espaço oferece proteção adicional no cotidiano do transporte coletivo, embora precise estar acompanhado de fiscalização e melhores condições de funcionamento do sistema.
Aline considera que a prevenção deveria começar ainda nas plataformas. “O ideal seriam dois seguranças por plataforma, um de cada lado da estação, mas no mínimo um por plataforma já ajudaria muito. Isso evitaria que homens entrassem desde o início, em vez de depender da denúncia.”
Os relatos indicam que a segurança das passageiras não se resume à escolha entre um carro exclusivo e um vagão de uso misto. Ela também está relacionada à frequência das composições, à lotação, às condições dos trens e à presença efetiva de agentes nas estações.
Em Águas Claras, uma das estações de maior movimento e importância operacional da rede, o carro exclusivo cumpre uma função reconhecida pelas usuárias, mas também evidencia desafios que continuam presentes diariamente no sistema: fiscalização, lotação e a busca por uma viagem mais segura.