Por Elsânia Estácio

A cidade de Águas Claras, conhecida por seu urbanismo planejado e qualidade de vida, ainda apresenta barreiras para quem vive com mobilidade reduzida, como cadeirantes, a rotina é marcada por desvios, obstáculos e, muitas vezes, frustrações.
Relatos de moradores revelam o impacto direto da falta de infraestrutura adequada para inclusão, a falta de consciência coletiva e a urgência por melhorias na acessibilidade, principalmente para cadeirantes que enfrentam dificuldades em trajetos curtos, calçadas danificadas e falta de travessias seguras nos bairros.

A aposentada Maria Aparecida de Oliveira, 64 anos, está há cerca de um mês morando com a irmã em Águas Claras. Cadeirante, ela conta que a expectativa de autonomia logo deu lugar a uma realidade cheia de obstáculos. “Não consigo fazer nenhum trajeto completo com facilidade. O maior problema é atravessar avenidas, na maioria delas, simplesmente não tem como. O pedestre atravessa porque pode subir, mas a cadeira não. Já precisei remarcar consulta médica e até para ir ao laboratório Sabin, que fica perto de casa, não consegui. Às vezes tento sair, mas acabo desistindo”, relata.
Entre as tentativas frustradas, Maria menciona o trajeto até a clínica em frente ao Batalhão do Corpo de Bombeiro, onde só conseguiu atravessar com a ajuda de um policial que parou o trânsito. O mesmo ocorreu quando tentou ir a uma consulta no Pátio Capital, em Taguatinga. Mesmo com locais próximos, a falta de acessibilidade a impede de chegar ao destino com segurança e autonomia.
A irmã, Neide Maria de Oliveira Cabral, 61, acompanha as dificuldades de perto. “Mesmo trajetos de 500 metros viram um transtorno. Às vezes a gente precisa voltar uma quadra inteira porque tem um carro parado na rampa ou a calçada está danificada. Um percurso simples se transforma em mais 20 minutos de desgaste.”

Anivaldo Gomes Barbosa, 72 anos, enfrenta diariamente os desafios de se locomover pelas calçadas irregulares de Águas Claras. “Sozinho, não consigo sair. As calçadas são estreitas, quebradas e cheias de obstáculos.”

Patinetes: um novo desafio urbano
Neide também chama atenção para um problema crescente em Águas Claras: os patinetes elétricos deixados de forma irregular nas calçadas, que frequentemente bloqueiam rampas e atrapalham a mobilidade de cadeirantes. “Minha irmã tentou passar por uma rampa, mas tinha um patinete parado bem na frente. Ela tentou contornar, mas não conseguiu, acabou derrubando o aparelho. Ela não consegue levantar sozinha. Infelizmente, falta consciência. Já me assustei também com patinetes passando em alta velocidade bem perto de mim, mesmo eu estando na calçada”, relata.
O serviço é resultado de uma parceria da Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) com a empresa JET, responsável pelo aluguel compartilhado dos equipamentos. O uso dos patinetes elétricos, cada vez mais comuns em Águas Claras, também exige regulamentação. Segundo o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), a Resolução nº 996/2023 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) regulamenta a circulação de patinetes, classificando-os como equipamentos de mobilidade individual autopropelidos, e não como veículos.
O Detran-DF também especifica que a velocidade máxima permitida para patinetes é de 6 km/h em calçadas e 20 km/h em ciclovias e ciclofaixas. Em vias públicas com limite de até 40 km/h, os patinetes devem circular nas laterais, no mesmo sentido dos veículos, sendo proibida sua circulação em vias de trânsito rápido, rodovias e estradas. Mesmo com essas regras, a fiscalização ainda é insuficiente, e muitos equipamentos são deixados de forma irregular, bloqueando rampas e calçadas.

Maria Aparecida de Oliveira, 64 anos, e sua irmã Neide enfrentam juntas os desafios da falta de acessibilidade em Águas Claras. “Até trajetos curtos viram um transtorno. A cidade não foi pensada para quem vive com mobilidade reduzida”, afirma Neide.

Travessias inseguras e rampas irregulares
Segundo Neide, as avenidas de Águas Claras apresentam sérios problemas de acessibilidade. “Muitas têm rampas nas calçadas, mas no canteiro central não há continuidade. Isso impede completamente a travessia de cadeirantes. As rampas existentes, em sua maioria, são fora do padrão e muito íngremes. E o tempo dos semáforos também é insuficiente.”
Maria Aparecida complementa que não adianta ter rampa se ela é mal feita ou termina em um buraco. “A cadeira não passa. A cidade precisa ser pensada com a participação de quem vive essas dificuldades todos os dias.”
Outro morador que enfrenta as mesmas dificuldades é o cadeirante Anivaldo Gomes Barbosa, 72. “Quando a calçada está quebrada, estreita, ou os carros estacionam em frente às rampas, somos obrigados a andar no meio da rua. Isso é muito perigoso. Queria ter liberdade de ir mais longe, mas sozinho não consigo, porque é muito carro e as calçadas não têm. Só um pedacinho é bom, o resto não tem acesso. Tem muita dificuldade”, afirma.
Arivaldo também reforça a dependência constante de outra pessoa para sair de casa: “Eu sozinho não posso sair, porque tem lugar que não tem como passar. Tem que ter alguém auxiliando, para segurar a cadeira e ela não virar. Eu espero que melhore, é claro, para todos nós, cadeirantes.” Sua esposa, Elisabeth Rodrigues Barbosa, 65, acrescenta que no caminho para a igreja, para o parque, sempre tem um obstáculo. “É um sofrimento constante. E quem acompanha também sofre, com medo de acontecer algo.”
O que diz a lei: direito à acessibilidade é garantido
Segundo o advogado Dr. Phellip Ponce, especialista em direitos da pessoa com deficiência, a realidade vivida por esses moradores representa uma violação clara à Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015). “O artigo 3º garante à pessoa com deficiência o direito à acessibilidade em todos os espaços, sejam públicos ou privados. Isso inclui a eliminação de barreiras físicas, arquitetônicas, comunicacionais e atitudinais”.
E esclarece que a responsabilidade legal é clara. “O poder público deve garantir a conservação e a adaptação dos espaços urbanos. Se não cumprir esse dever, pode ser responsabilizado civilmente por danos morais, conforme os artigos 186 e 927 do Código Civil.”
Dr.Ponce destaca ainda a importância da acessibilidade atitudinal, relacionada ao comportamento da sociedade diante da pessoa com deficiência. “Não se trata apenas de obras físicas. É preciso empatia, respeito e sensibilidade com o direito de ir e vir de todos.” Outro ponto importante é a acessibilidade comunicacional e tecnológica, prevista no artigo 53 da mesma lei, e deve garantir, por exemplo, o uso de intérpretes de Libras, closed caption e outros recursos para pessoas com deficiência visual ou auditiva.

Fiscalização e
canais de denúncia
Dr. Phellip também alerta para a importância da fiscalização e da conformidade com a NRB 9050, norma que regula o desenho universal nos espaços urbanos. “A calçada deve ser nivelada, com rampas adequadas, piso tátil para pessoas com deficiência visual, e largura mínima para garantir passagem de cadeiras de rodas.”
Segundo ele, o cidadão pode agir registrando denúncias na Ouvidoria da Secretaria de Mobilidade, na Secretaria da Pessoa com Deficiência ou junto ao Conselho da Pessoa com Deficiência do DF. “Se necessário, também é possível recorrer à Justiça e solicitar indenização por danos morais decorrentes da omissão do Estado”, explica Ponce.
“Convidem pessoas com deficiência para mostrar onde estão os problemas. Com pequenas mudanças, dá para garantir mais segurança e dignidade”, propõe Maria Aparecida. Já Anivaldo faz um apelo. “Eu espero que melhore. Para mim e para todos os cadeirantes.”