Por Aline Diniz

Entre os prédios e vias movimentadas de Águas Claras, moradores têm encontrado nas praças um espaço de conexão, pertencimento e resistência urbana. A região conta com cerca de 36 praças públicas, muitas das quais passaram por transformações significativas graças ao envolvimento voluntário da população. Espalhadas pelos bairros, essas iniciativas têm promovido melhorias na segurança, na paisagem e na vida comunitária.
Vera Lúcia Werneck Cardoso, moradora da cidade desde 2012, foi uma das primeiras a transformar o incômodo em ação. Ao se mudar para um apartamento próximo à estação Arniqueiras, deparou-se com um espaço público em estado de abandono. “Presenciei vários episódios ruins: assaltos em carros, vandalismo, sujeira, na seca poeira e na chuva lama”, relembra. Após procurar a Administração Regional, foi convidada a cuidar do local. “Assustei porque estava chegando, não conhecia ninguém, mas respondi: ‘Pode contar comigo’.”

Vera Lúcia Werneck Cardoso, idealizadora da Praça Condor: “A maior inspiração é o amor por esta praça.”

Assim surgiu a Praça Condor, ao lado da estação Arniqueiras. Com a ajuda de moradores, Vera passou a organizar tarefas de limpeza, irrigação e manutenção. “Recolhemos lixo, cuidamos das árvores, contratamos jardineiro quando precisa, tudo custeado por moradores e condomínios. Na seca, carregamos água de nossas casas para que as árvores sobrevivam. A comunidade respeita e acolhe nosso trabalho. Valorizam com gestos de agradecimento.”
A praça ganhou também um novo significado cultural com o retorno do evento Chorinho na Praça, realizado toda terceira sexta-feira do mês. “Os músicos aparecem, a comunidade desce com seus banquinhos, comemoram aniversários ao som de boa música. É um presente para Águas Claras.” Para Vera, a inspiração é clara: “A maior inspiração é o amor por esta praça.”

Na Praça Tuiuiú, localizada na Rua Buriti Norte, Lote 1, o cuidado vem de José Orlando Damasceno Vidal, que há oito anos se dedica à manutenção do espaço. A motivação inicial foi o receio de que a área fosse ocupada por empreendimentos imobiliários. “A gente estava com medo do espaço virar prédio. Corremos atrás e prometeram fazer a praça. Fizeram, mas o acabamento não foi bom, não tinha plantas que pudessem melhorar.”
Nomeado cuidador pela administração, Orlando resolveu transformar a paisagem. “Resolvi plantar, colocar plantas ornamentais. Hoje a praça está realmente muito bonita.” O resultado rendeu reconhecimento: “Tirou em primeiro lugar. O administrador e o governador me deram uma medalha de mérito. Fizeram um jantar e me deram uma placa de agradecimento pelo meu trabalho.”
Mesmo arcando com todos os custos, Orlando segue motivado. “Tenho abacate, jaca, mexerica, pitanga, limão siciliano, dois tipos de mangueira. Quem chega aqui consegue pegar alguma fruta.” Sobre o apoio, ele é direto: “Nunca pedi dinheiro a ninguém. O que eu preciso é apoio moral.”

Já na Praça Flautim, Leila Menezes Xavier encontrou na escuta uma forma de promover mudanças. Presente em reuniões entre moradores e administração, percebeu que o diálogo estava travado. “Pensei que a praça poderia ser explorada melhor, trazendo união e lazer.”
Em 45 dias, organizou uma comemoração de Natal que reuniu mais de cem pessoas. “As crianças brincavam, as pessoas se cumprimentavam. Hoje nos conhecemos melhor.” A mudança veio também na forma de comunicação. “Iniciamos um processo de comunicação não violenta com a comunidade e com o comércio local, que nos recebeu muito bem.”

Leila Menezes Xavier, articuladora da Praça Flautim, junto ao grupo de moradores responsáveis pelos cuidados: “Os espaços são nossos e zelar por eles também é nosso dever.”

Embora reconheça desafios, Leila aponta avanços: “A maior dificuldade são pessoas que criticam, mas não querem se envolver. Nossas demandas de limpeza da praça e de aprovação da festa e da feira foram atendidas nesses últimos três meses.” Para ela, cuidar do espaço é um dever coletivo: “Os espaços são nossos e zelar por eles também é nosso dever.”