Por Aline Diniz
A violência dentro de casa nem sempre começa com uma agressão física ou está restrita à relação entre marido e mulher. Ela pode aparecer na forma de humilhações, ameaças, controle financeiro, isolamento e violência psicológica, inclusive quando praticada por filhos ou outros familiares. Em muitos casos, a própria vítima demora a reconhecer que está vivendo uma situação de violência.
Desde março deste ano, Águas Claras conta com uma unidade do Núcleo de Acolhimento à Mulher, vinculada ao programa Direito Delas, da Secretaria de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (Sejus-DF). Instalado no Cowmeia Coworking, no Edifício Easy, o espaço oferece gratuitamente atendimento psicológico, social e jurídico e funciona como porta de entrada para outros serviços da rede de proteção.
Desde a inauguração, foram realizados 100 atendimentos especializados na unidade, sendo 93 psicológicos, seis jurídicos e um social. Em todo o Distrito Federal, o Direito Delas conta com 12 núcleos. Entre janeiro e agosto de 2026, o programa acolheu 1.360 novas pessoas e realizou 4.415 atendimentos psicológicos, sociais e jurídicos.

Acolhimento sem burocracia
Para procurar o núcleo, a mulher não precisa saber previamente qual órgão acionar ou que medida tomar. O atendimento ocorre por procura espontânea ou encaminhamento da rede de proteção. A equipe acolhe a demanda, orienta sobre os direitos e apresenta as possibilidades de atendimento de acordo com cada situação.
Também não é necessário apresentar boletim de ocorrência para receber acolhimento. A proposta é permitir que a mulher encontre orientação antes mesmo de decidir pela denúncia, reconhecendo que romper uma situação de violência envolve dificuldades emocionais, familiares e financeiras.
A Lei Maria da Penha reconhece, além da violência física, as violências psicológica, sexual, patrimonial e moral. O programa Direito Delas possui uma atuação mais ampla e, conforme os critérios estabelecidos, também atende pessoas idosas vítimas de crimes, vítimas de crimes violentos, órfãos do feminicídio e familiares de vítimas.

Quando a violência vem da família
O atendimento oferecido pelo núcleo não está restrito às mulheres que sofrem violência praticada por maridos ou companheiros. No ambiente familiar, as agressões também podem partir de filhos ou outros parentes, assumindo formas que nem sempre são reconhecidas imediatamente pelas vítimas.
O acompanhamento oferecido pelo serviço busca ajudar as pessoas atendidas a compreender as situações vividas e recuperar a confiança para lidar com as relações familiares. Além dos atendimentos psicológicos e jurídicos, o programa mantém parcerias que possibilitam a participação em atividades de capacitação e geração de renda, contribuindo para ampliar as perspectivas de autonomia financeira.
Uma das dificuldades enfrentadas pelas equipes de acolhimento é justamente o reconhecimento da violência. Muitas mulheres procuram ajuda sem perceber claramente que estão submetidas a situações de abuso. A identificação desses comportamentos pode ocorrer durante os primeiros atendimentos, quando recebem orientação profissional e começam a compreender as causas do sofrimento.
Após a triagem, cada situação é avaliada individualmente. Normalmente, são oferecidas seis sessões psicológicas, com possibilidade de continuidade em grupos e outras atividades. Entre as iniciativas estão o Papo Delas, com rodas de conversa, e o Banco de Talentos, voltado à valorização das habilidades e à autonomia das participantes.
Embora esteja localizado em Águas Claras, o núcleo também recebe pessoas do Areal, Arniqueira, Vicente Pires e Taguatinga. O programa atende residentes do Distrito Federal e não exige comprovação de baixa renda.
Marcas que não aparecem no corpo
Os efeitos da violência psicológica podem ser profundos mesmo quando não existem marcas físicas. Baixa autoestima, culpa, insegurança, isolamento social, ansiedade, depressão e perda de autonomia estão entre as consequências observadas por profissionais que atuam no atendimento às vítimas.
A violência psicológica frequentemente se desenvolve de forma gradual. Manipulações e comportamentos de controle podem evoluir para agressões, seguidas de pedidos de desculpas, promessas de mudança e períodos de carinho. Esse ciclo alimenta a expectativa de que o relacionamento irá melhorar e dificulta o reconhecimento da situação de violência.
Por isso, o acolhimento deve priorizar uma escuta humanizada, sem julgamentos ou perguntas que culpabilizem a vítima. A necessidade de repetir diversas vezes os episódios vividos também pode provocar revitimização, tornando ainda mais difícil a busca por proteção.

“A violência psicológica acontece de forma gradual e a mulher sente os efeitos e não consegue relacionar como sendo uma violência”, alerta Sandra Uiaqui (à esquerda), psicóloga e subtenente reformada da Polícia Militar, que destaca a importância do acolhimento humanizado e sem julgamentos.
Informação também é proteção
Além de oferecer atendimento, tornar o serviço conhecido é um dos desafios do programa. Informações sobre o Direito Delas, endereços e canais de acolhimento vêm sendo divulgadas em locais de grande circulação, como shoppings, bares e restaurantes, inclusive nos banheiros femininos desses estabelecimentos.
A divulgação em condomínios, unidades de saúde, escolas, estabelecimentos comerciais e redes sociais também é considerada importante para aproximar os serviços de proteção das mulheres que ainda não sabem onde buscar ajuda.
A informação precisa alcançar a população antes mesmo de surgir uma situação de emergência. A proximidade do atendimento pode facilitar o acesso à orientação e contribuir para que mais mulheres reconheçam seus direitos e as possibilidades de proteção disponíveis.
A rede de proteção também tem o desafio de oferecer condições para que as vítimas reconstruam a vida após a violência. Além de interromper as agressões, esse processo envolve apoio emocional, informação, segurança e oportunidades de recuperação da autonomia pessoal e financeira.
O Núcleo Direito Delas funciona no Cowmeia Coworking, no Edifício Easy, em Águas Claras, de segunda a quinta-feira, das 9h às 17h. O atendimento é gratuito e pode ser agendado pelo telefone (61) 98314-0743. Em situações de urgência, a mulher também pode procurar diretamente a unidade durante o horário de funcionamento.






