Por Elsânia Estácio

O enfrentamento do câncer de mama não termina com uma cirurgia, com a última sessão de quimioterapia ou com o fim do Outubro Rosa. Para muitas mulheres, a jornada continua na recuperação física, na adaptação às mudanças do corpo, no cuidado com a saúde emocional e na retomada dos planos pessoais e profissionais.
O Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio de 2026 a 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A doença é o tipo de câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras, quando excluídos os tumores de pele não melanoma.

Giselle Tormim, moradora de Águas Claras, enfrentou 16 sessões de quimioterapia e uma cirurgia após receber o diagnóstico de câncer de mama em janeiro deste ano. Para ela, lidar com os desafios emocionais e com a preocupação da família foi a parte mais difícil do tratamento

Entre o tratamento, os desafios emocionais e a reconstrução da rotina, em Águas Claras, histórias de mulheres que viveram essa experiência e o trabalho de profissionais e instituições da cidade mostram como o acolhimento e o acesso à informação podem fazer diferença em diferentes etapas do processo.
Moradora de Águas Claras, Giselle Tormim, de 44 anos, recebeu o diagnóstico de câncer de mama em 30 de janeiro de 2026. O tratamento começou em 19 de fevereiro e, ao longo de seis meses, ela passou por 16 sessões de quimioterapia. Em 18 de agosto, foi submetida a uma cirurgia. A notícia foi um baque, pois sempre manteve hábitos saudáveis e praticava atividade física. “Estava no auge de um corpo saudável, alta massa magra e baixo percentual de gordura. Externamente, não podia imaginar que estaria doente. E, ainda assim, aconteceu”, conta.
Para Giselle, os cuidados que cultivou ao longo da vida foram importantes durante o tratamento. Ela relata que conseguiu atravessar as sessões de quimioterapia sem sentir fisicamente os efeitos colaterais agressivos que temia. Mesmo diante do diagnóstico, procurou manter a rotina de exercícios e os hábitos saudáveis, além de se apoiar na fé. “No momento que mais precisei da minha saúde, ela me recompensou. Foi graças a um corpo saudável que passei por 16 sessões de quimioterapia, seis meses de tratamento, sem sentir no físico os efeitos colaterais agressivos”, afirma.

A psicóloga Laynara Paiva, da clínica Universo Casulo, destaca que o acolhimento emocional deve começar desde o diagnóstico e que as pacientes precisam ter espaço para expressar seus medos e fragilidades.

Se o tratamento trouxe desafios físicos, a batalha emocional foi, segundo ela, a parte mais difícil. Giselle precisou lidar com pensamentos opostos, alternando entre o medo e a fé, o desânimo e a vontade de viver. Também enfrentou a dor de perceber o sofrimento e a preocupação da família. Durante todo o processo, fez acompanhamento terapêutico. “Enfrentar a minha mente foi meu maior desafio. E o segundo maior desafio foi ver o sofrimento da minha família e o medo no olhar deles”, relata.

O acolhimento emocional também faz parte do cuidado
Para a psicóloga da clínica Universo Casulo, Laynara Paiva, as mudanças provocadas pelo diagnóstico não se limitam ao corpo. Medo, insegurança, tristeza, raiva e preocupação com o futuro podem surgir em diferentes momentos, e cada mulher reage de uma maneira. Segundo ela, o câncer de mama também pode afetar a autoestima, a sexualidade, os relacionamentos, a autonomia e a identidade.

A oncologista Jana Pacífico, do Hospital Brasília Águas Claras, reforça a importância dos exames de rastreamento e do diagnóstico precoce, mesmo quando a mulher não apresenta sintomas.

Por isso, não existe uma única resposta emocional esperada de quem recebe o diagnóstico. Algumas mulheres demonstram suas angústias abertamente, outras precisam de tempo para assimilar a notícia. “Ser forte não significa não sentir medo, não chorar ou não se abalar”, explica a profissional. Para ela, a expectativa de que a mulher diagnosticada com câncer precisa ser uma “guerreira” o tempo todo pode dificultar a expressão de sentimentos e fazer com que a paciente sinta que não tem espaço para demonstrar fragilidade.
Laynara recomenda que o suporte emocional seja considerado desde o diagnóstico, e não apenas quando a paciente chega a uma situação de crise. O acompanhamento psicológico pode ajudar a lidar com a ansiedade, comunicar necessidades e construir recursos para enfrentar as diferentes etapas do tratamento. Alterações persistentes no sono, no apetite, na concentração ou no funcionamento cotidiano também merecem atenção, em diálogo com a equipe de saúde.
“O cuidado emocional não substitui o acompanhamento médico, mas pode contribuir para a qualidade de vida durante o processo. É importante reconhecer que esperança e medo podem coexistir, sem que a paciente precise esconder um sentimento para demonstrar o outro”, alerta Laynara.
Coordenadora do serviço de oncologia clínica do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, a médica Jana Pacífico reforça que o câncer de mama pode se desenvolver sem apresentar sintomas nas fases iniciais. Por isso, não é necessário esperar o aparecimento de um nódulo ou de outra alteração para cuidar da saúde das mamas. Entre os sinais que merecem avaliação médica estão nódulos na mama ou na axila, mudanças no formato das mamas, retração da pele ou do mamilo, secreção espontânea, principalmente com sangue, e vermelhidão persistente. Embora nem toda alteração indique câncer, a investigação é importante.

Fabíola Constâncio, ex-jogadora de vôlei de praia, transformou a própria experiência com o câncer de mama em uma conquista para o esporte: uma lei distrital que protege a pontuação de atletas afastados por doenças graves.

A médica explica que a mamografia é o principal exame de rastreamento e que as principais sociedades médicas brasileiras recomendam sua realização anual a partir dos 40 anos para mulheres com risco habitual. Quem tem histórico familiar significativo ou predisposição genética pode precisar de acompanhamento individualizado e exames mais cedo.
“Minha principal orientação é que as mulheres não deixem que o medo seja um obstáculo para o cuidado com a própria saúde”, afirma Jana. Segundo ela, os avanços da oncologia permitem tratamentos cada vez mais eficazes e personalizados, com melhores resultados especialmente quando a doença é identificada precocemente.
Para a médica, a conscientização não pode ficar restrita a outubro. “O Outubro Rosa é uma oportunidade de ampliar o acesso à informação, esclarecer dúvidas e incentivar as mulheres a priorizarem sua saúde. No entanto, essa conscientização precisa permanecer durante todo o ano”, destaca.

De uma experiência dolorosa a uma lei que protege atletas
Fabíola Constâncio, 44 anos, transformou uma experiência dolorosa em uma conquista que ultrapassou sua própria história. Ex-jogadora com longa trajetória no Circuito Brasileiro de vôlei de praia, ela recebeu o diagnóstico de câncer de mama em 2019 e precisou interromper a carreira para tratar a doença.
Em 2023, enfrentou uma recidiva e passou a lidar com os efeitos do bloqueio hormonal, que reduziu sua disposição física. “Para uma pessoa que era completamente ativa, que acordava e já ia fazer uma atividade física, me ver nessa situação de não conseguir fazer as coisas básicas, de não ter energia, é muito difícil. Até hoje tenho que trabalhar muito a minha mente”, conta.
Após o período de tratamento, Fabíola tentou retomar a carreira, mas enfrentou outra batalha, a fim de buscar melhorias estruturais para voltar a competir. Seu caso ganhou repercussão e resultou na criação da Lei Distrital nº 7.050/2022, conhecida como Lei Fabíola Constâncio, que garante proteção aos atletas com doenças graves e a manutenção da pontuação nos rankings de competições realizadas no Distrito Federal por até sete anos, contados a partir do diagnóstico conclusivo.
A mudança exigiu uma reinvenção também no campo profissional na vida da ex-atleta. Formada em Administração e concluindo a graduação em Educação Física, Fabíola hoje trabalha com gestão esportiva, realiza palestras e criou uma marca de roupas fitness voltada à conscientização sobre o câncer de mama. Ela também pretende desenvolver um trabalho direcionado a pacientes oncológicas.
Apesar das perdas e das dificuldades, Fabíola afirma que a experiência transformou sua maneira de enxergar a vida. Diz ter se tornado mais madura, confiante e espiritualizada, além de ter aprendido a reconhecer melhor suas próprias forças e fragilidades. “Eu acho que saí uma pessoa muito melhor, mais forte, mais determinada, me conhecendo melhor”, afirma.
Além dos desafios físicos e emocionais, pacientes podem enfrentar dificuldades para conseguir exames, iniciar o tratamento ou acessar procedimentos necessários à recuperação. Para Priscila Lima Machado, advogada especialista em Direito da Saúde e presidente da Comissão de Direito Médico e da Saúde da OAB/DF, subseção Águas Claras, conhecer os próprios direitos é parte importante dessa jornada. “Em um momento tão delicado, a paciente não deveria precisar gastar energia tentando descobrir a que tem direito ou como conseguir atendimento”.
Segundo a jurista, entre as garantias previstas na legislação estão os prazos para investigação e início do tratamento oncológico pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além do acesso à reconstrução mamária e a outros cuidados necessários à recuperação. “Garantir o acesso à saúde também significa acolher quem está em situação de vulnerabilidade e não sabe a quem recorrer”, explica a advogada.
A comissão também desenvolve o projeto social Rede Justiça e Saúde, que oferece assistência jurídica voluntária a pessoas em situação de vulnerabilidade econômica. A iniciativa já atuou em mais de 100 processos relacionados ao SUS e a operadoras privadas de saúde, em diferentes regiões do país. Neste ano, o projeto recebeu reconhecimento do Conselho Nacional de Justiça e do Fórum Nacional do Judiciário para a Saúde.