por Patrícia Rebelo

Há mais de uma década à frente da Associação de Moradores e Amigos de Águas Claras (AMAAC), Román Cuattrin acompanha de perto a transformação da cidade. Desde a criação da entidade, em 2012, participou das principais discussões sobre mobilidade, urbanismo e qualidade de vida e tornou-se uma das principais vozes na defesa dos interesses dos moradores. Em entrevista à Folha de Águas Claras, ele faz um diagnóstico dos desafios enfrentados pela região e defende que o poder público retome o planejamento original para preservar a qualidade de vida em uma das cidades que mais cresceram no Distrito Federal.
A mobilidade urbana aparece no topo da lista de preocupações. Embora Águas Claras conte com metrô e uma localização privilegiada, Román avalia que o crescimento populacional tornou o sistema insuficiente para atender à demanda. “Águas Claras continua crescendo, mas os problemas estruturais permanecem. Precisamos investir muito mais no transporte público, ampliar a integração entre ônibus e metrô e melhorar a circulação interna da cidade”, afirma. Para ele, a cidade precisa de linhas circulares ligando os bairros às estações do metrô e à EPTG, além de maior frequência dos trens, ampliação dos horários de funcionamento, novos estacionamentos públicos, expansão das ciclofaixas e readequação de cruzamentos considerados críticos.
Essa deficiência, segundo ele, também se reflete na segurança do trânsito. Cuattrin afirma que muitos acidentes registrados em vias da cidade decorrem da falta de planejamento viário e critica a ausência de diálogo entre os órgãos responsáveis e a população. “Quem mora aqui conhece os pontos onde acontecem acidentes toda semana. Muitas vezes falta sinalização ou uma intervenção simples, mas o poder público só age depois que ocorre uma tragédia”, observa.

“Quero que Águas Claras continue sendo uma cidade moderna, mas sem perder aquele espírito acolhedor, onde as pessoas se encontram, caminham e conhecem os vizinhos”, afirma Román

Mobilidade e áreas verdes
Se existe uma pauta que simboliza a atuação da AMAAC ao longo dos últimos anos, essa pauta é o Parque Central. Román lembra que a associação participou, em 2015, de uma ação civil pública para cobrar a execução do projeto, iniciativa que levou à realização do concurso nacional de arquitetura responsável pela escolha do projeto vencedor. Apesar desse avanço, quase dez anos depois a obra continua sem sair do papel. “O andamento hoje é praticamente zero. O projeto existe, o concurso foi realizado, mas o parque continua apenas no papel”, lamenta. Na avaliação dele, o espaço representa muito mais do que uma área de lazer: trata-se de um equipamento essencial para ampliar as áreas verdes, incentivar a prática esportiva e melhorar a qualidade ambiental de uma cidade marcada pela intensa verticalização.
A demora na implantação do parque motivou novas iniciativas da associação. Uma delas questiona judicialmente a instalação de um estande comercial em uma área destinada ao futuro parque. Para Román, preservar os terrenos originalmente reservados aos equipamentos públicos é fundamental para impedir que o crescimento imobiliário elimine os últimos espaços livres da cidade.
A deficiência de equipamentos públicos também preocupa a entidade. Apesar dos elevados indicadores sociais de Águas Claras, Román lembra que milhares de moradores dependem exclusivamente da rede pública de saúde. “Existe uma ideia equivocada de que Águas Claras não precisa de UPA porque é uma cidade de classe média alta. Os próprios dados do governo mostram que milhares de moradores não possuem plano de saúde”, afirma. Além da conclusão da Unidade de Pronto Atendimento, ele defende a construção de novas escolas, unidades básicas de saúde, delegacia da Polícia Civil e demais estruturas previstas no projeto urbanístico original.

Participação da comunidade
Na visão do presidente da AMAAC, a população demonstra interesse em participar das decisões que envolvem a cidade, especialmente pelas redes sociais. O problema, afirma, é que muitas vezes faltam canais efetivos para transformar esse engajamento em participação real. “As pessoas querem participar, mas precisam ser ouvidas. Não adianta realizar audiências apenas para cumprir protocolo”, ressalta, ao criticar a divulgação de reuniões públicas com pouca antecedência.
Outro tema recorrente nos debates da cidade é a ocupação de calçadas, praças e áreas públicas por ambulantes. Román afirma que a associação é favorável ao direito ao trabalho, desde que sejam respeitadas as normas urbanísticas e garantidos os direitos dos pedestres e dos comerciantes regularizados. “O direito ao trabalho não pode impedir o direito das outras pessoas de utilizar as calçadas, nem gerar concorrência desleal com quem paga impostos e cumpre todas as exigências legais”, diz. Ele também cobra maior fiscalização quanto ao descarte irregular de lixo e às ocupações que acabam favorecendo a proliferação de ratos em algumas áreas públicas.
Ao olhar para o futuro, Román afirma que deseja ver Águas Claras reconhecida não apenas pelos edifícios e pelo comércio diversificado, mas principalmente pela qualidade dos espaços públicos e pela convivência entre os moradores. O objetivo, segundo ele, é preservar a ideia original de uma cidade caminhável, onde seja possível realizar atividades a pé, frequentar parques e fortalecer a vida em comunidade.