por Patrícia Rebelo

O que começou de forma despretensiosa em um banco de praça, ao lado de uma churrasqueira portátil, tornou-se um dos movimentos culturais mais conhecidos de Águas Claras. Criado no fim de 2025 por um grupo de amigos apaixonados pelo samba, o Estação Samba Arniqueiras nasceu na Praça Condor, próxima à Estação Arniqueiras do metrô, e hoje reúne centenas de pessoas em rodas de samba realizadas em diferentes espaços públicos da cidade.

A ideia surgiu com o engenheiro Marcos Antônio Braga de Barros, o Marcão, atual presidente do movimento. Morador da região, ele costumava frequentar a praça com a filha e o cachorro enquanto tocava banjo. Aos poucos, outros moradores começaram a se aproximar. Alguns voltavam para casa para buscar seus próprios instrumentos e retornavam para participar da roda improvisada.

“Foi algo muito natural. As pessoas estavam carentes desse tipo de encontro. Viram o movimento, gostaram da ideia e começaram a participar”, lembra Marcão.

Para os organizadores, o cuidado com a comunidade também faz parte da rotina do grupo. Após cada apresentação, os participantes recolhem o lixo produzido durante o evento e organizam a limpeza da área utilizada.

Entre os primeiros integrantes estavam o vice-presidente Renato Alves e Helton Santos, responsáveis por ajudar a estruturar o grupo. Renato conta que, ao chegar às primeiras reuniões, percebeu a necessidade de organizar melhor o repertório e as apresentações. O que era apenas um encontro entre amigos começou a ganhar forma e identidade.

As rodas de samba passaram a acontecer regularmente às sextas-feiras, reunindo músicos amadores, profissionais e moradores que buscavam momentos de convivência. A cada semana, novos participantes apareciam. O público crescia e o ambiente familiar se consolidava.

Segundo os organizadores, a inspiração veio também de uma característica marcante da cultura carioca: a facilidade de criar laços e acolher as pessoas. Os três principais coordenadores do movimento são cariocas e enxergaram no samba uma forma de aproximar vizinhos e fortalecer o sentimento de comunidade em uma cidade marcada pela vida em apartamentos.

“Em Águas Claras, muitas vezes a gente não conhece nem o vizinho de porta. O samba acabou criando conexões que talvez nunca acontecessem de outra forma”, afirma Helton.

De encontro informal a fenômeno comunitário

O crescimento ganhou força após uma apresentação realizada na Praça da Quadra 102. O evento atraiu moradores de diversos prédios da região e marcou uma virada para o grupo. As redes sociais passaram a registrar e divulgar os encontros, ampliando o alcance do movimento.

Pouco tempo depois, o Estação Samba Arniqueiras enfrentou seu maior desafio. Divergências internas provocaram a saída de alguns integrantes, gerando dúvidas sobre a continuidade do projeto. Mesmo assim, o grupo decidiu seguir em frente e organizou uma nova roda de samba em uma praça até então pouco utilizada pela comunidade.

O resultado surpreendeu os organizadores. Centenas de pessoas compareceram ao evento e consolidaram o movimento como uma das principais iniciativas culturais espontâneas de Águas Claras. “Foi o dia em que entendemos que o samba era maior do que qualquer pessoa. Ali percebemos que o projeto tinha criado raízes”, recorda Renato.

Hoje, o grupo reúne cerca de 60 músicos. Muitos deles não vivem da música, mas encontram nas rodas de samba um espaço de convivência, lazer e expressão cultural. O sucesso foi tão rápido que os organizadores passaram a enfrentar uma realidade inesperada: a necessidade de estruturar um movimento que nasceu apenas para reunir amigos. “O que a gente queria era sentar e tocar. De repente, tivemos que aprender sobre licenças, autorizações, infraestrutura, custos e organização de eventos”, resume Marcão.

Muito além da música

Além da música, o grupo passou a desenvolver ações de apoio social. O movimento se transformou em uma rede de solidariedade que ajuda participantes em momentos de dificuldade. Integrantes relatam que o grupo já colaborou para a recolocação profissional de pessoas desempregadas e também promoveu arrecadações para auxiliar membros em situação de vulnerabilidade.

Os organizadores destacam ainda os impactos emocionais provocados pela convivência criada em torno do samba. Há relatos de pessoas que enfrentavam quadros de depressão e encontraram no grupo um espaço de acolhimento, amizade e convivência. “O samba virou terapia para muita gente”, resume Marcão.

As histórias vividas durante os encontros ajudam a explicar o sucesso do projeto. Entre elas está a de um senhor idoso que chegou apoiado em uma bengala e acabou participando da roda de samba tocando instrumentos e dançando. Em outro extremo da roda, Yan Dias, de 14 anos, tornou-se frequentador assíduo e encontrou no samba um incentivo para manter os estudos.

Para os organizadores, a convivência entre diferentes gerações é uma das maiores conquistas do movimento. Crianças, jovens, adultos, idosos, mulheres, pessoas com deficiência e moradores recém-chegados à cidade compartilham o mesmo espaço em torno da música.

O grupo também se preocupa com a inclusão. As rodas são abertas a qualquer pessoa interessada em participar, independentemente do nível técnico ou da experiência musical. Quem chega é convidado a integrar a roda e compartilhar o momento com os demais participantes.

Os desafios para manter o samba vivo

Com o crescimento do público, vieram também novas responsabilidades. Os eventos passaram a exigir autorizações, estrutura de som, banheiros químicos, tendas, geradores e custos operacionais que antes não existiam. Segundo os organizadores, a burocracia se tornou um dos principais desafios para a continuidade do projeto.

A intenção agora é formalizar o movimento por meio da criação de uma associação cultural, permitindo a busca por patrocínios e apoios institucionais que garantam maior estabilidade financeira.

Outro aspecto valorizado pelo grupo é o impacto positivo gerado para a economia local. As rodas de samba são realizadas em praças próximas a bares, restaurantes e pequenos comércios, atraindo consumidores e movimentando os estabelecimentos da região.

As rodas acontecem em sistema de rodízio entre diferentes praças para minimizar impactos na vizinhança, e o encerramento ocorre rigorosamente às 22h, respeitando a legislação sobre emissão de ruídos.

Para o futuro, os integrantes desejam que o Estação Samba Arniqueiras seja reconhecido como um patrimônio cultural de Águas Claras e tenha condições de continuar promovendo seus encontros sem perder a essência que deu origem ao movimento.

“Queremos que as pessoas pensem em Águas Claras e lembrem que aqui existe samba, cultura e convivência. Esse é o nosso sonho”, afirma Marcão.

Mais do que uma roda de samba, o movimento tornou-se um ponto de encontro para moradores que buscavam pertencimento. Em poucos meses de existência, amigos que sequer se conheciam construíram uma rede de relações capaz de transformar praças em espaços de convivência e fazer da música um instrumento de integração social.