Por Elsânia Estácio

O início de um novo ano remete à ideia de recomeço e à oportunidade de repensar a vida. Em meio a esse clima, a campanha Janeiro Branco volta a chamar a atenção para a importância da saúde mental. Criada em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão, a iniciativa foi oficializada pela Lei 14.556/2023 e visa estimular o cuidado emocional e a prevenção de transtornos como ansiedade, depressão e burnout.
Com o tema “O que fazer pela saúde mental agora e sempre?”, a campanha deste ano propõe uma abordagem coletiva, envolvendo desde indivíduos até organizações na construção de ambientes mais saudáveis. Em uma cidade marcada pelo crescimento rápido e pela rotina intensa, a realidade de Águas Claras reflete muitos dos desafios vividos em todo o Distrito Federal.

A rotina exige mais do que podemos dar

A psicóloga clínica Patrícia Melo observa que a campanha Janeiro Branco é essencial para aproximar a saúde mental do cotidiano das pessoas. Segundo a especialista, vivemos um período de excesso de estímulos, cobranças constantes e pouco espaço para pausas e escuta interna.

“A campanha ajuda a romper o tabu de falar sobre emoções e sofrimento psíquico. Falar de saúde mental é falar de qualidade de vida, relações mais saudáveis e prevenção”, defende a psicóloga clínica Patrícia Melo

Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam a urgência do tema: mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com transtornos mentais, sendo a ansiedade e a depressão os mais frequentes. O Brasil lidera os índices de ansiedade no mundo e é campeão em casos de depressão na América Latina.
Em 2025, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou um aumento de 143% nos afastamentos do trabalho por problemas psicológicos. Segundo a Dra. Patrícia, muitos só buscam atendimento quando os sintomas já são graves. “Ansiedade intensa, crises de choro, insônia, irritabilidade, esgotamento, dificuldade de concentração e conflitos são gatilhos comuns”.
A estudante Maria Luisa, paciente da psicóloga Patrícia Melo, relata como a terapia transformou sua relação com as próprias emoções. “Quando comecei o acompanhamento, eu estava muito ansiosa, estava estressada e me sentia perdida. Achava que encontraria respostas prontas, mas descobri que o processo terapêutico nos oferece perguntas e é a partir delas que passamos a nos conhecer melhor e compreender nossas reações.” Para ela, campanhas como o Janeiro Branco são essenciais para mostrar que pedir ajuda não é fraqueza, mas um ato de coragem e cuidado consigo mesmo.

A importância de falar sobre as emoções

Para Tatiane Ribeiro, psicóloga especialista em psicologia da saúde, o Janeiro Branco é uma forma de lembrar que a saúde mental também deve ser prioridade. “A grande maioria ainda procura tratamento quando os problemas emocionais já estão limitando suas vidas. Em casos mais graves, é necessário o uso de medicação, pois os sintomas já trazem muito sofrimento”.

A psicólogo Tatiane Ribeiro destaca que todos os campos da vida podem ser afetados. “Isolamento, queda de desempenho no trabalho, prejuízos financeiros e relacionais. Assim como fazemos um check-up físico, deveríamos fazer um mental”.

A psicóloga também compartilha o depoimento de uma paciente, Lea Fernanda, que enfrentou o Transtorno Obsessivo-Compulsivo e crises de ansiedade durante a pandemia. “Hoje, após seis anos, já consigo controlar minhas crises de ansiedade e até de pânico. A terapia me ajudou e continua me ajudando a cuidar da minha saúde mental”.
Além do atendimento clínico, Tatiane também desenvolve ações voltadas ao apoio de famílias. Ela é idealizadora do projeto “Escola de Mães”, criado a partir de orientações frequentes a pais e responsáveis durante sua prática profissional. “Comecei a perceber dúvidas e dificuldades em comum, e decidi transformar isso em um espaço de orientação em grupo”, explica.
Inicialmente realizado presencialmente em uma escola de Águas Claras, o projeto passou a acontecer de forma online e será retomado em novo formato em 2026, com foco em lives com especialistas, abertura para perguntas e encontros presenciais. “São muitas dúvidas, inseguranças e informações equivocadas. A proposta é oferecer acolhimento e orientação qualificada para essas mães que enfrentam tantos desafios”, destaca a psicóloga.

Quando a dor silenciada vira urgência

Com 26 anos de experiência clínica, Ana Brígida Cunha observa que muitas pessoas ainda acreditam que precisam dar conta sozinhas do que sentem. Ela relata que muitos pacientes só procuram ajuda após crises ou surtos e é comum que uma crise de pânico, por exemplo, leve a pessoa ao hospital. Os exames não apontam nada físico, mas o corpo já está gritando por socorro emocional. Ana Brígida também faz uma análise do cotidiano em Águas Claras.

“Muita gente tenta de tudo antes da terapia, métodos alternativos, conselhos, autoajuda. E quando chega ao consultório, já está no limite funcional, não consegue mais viver como antes, não consegue trabalhar, se relacionar ou se organizar emocionalmente”, explica a psicóloga Ana Brígida Cunha

Ana Brígida Cunha também faz uma reflexão sobre o cotidiano das pessoas que vivem em Águas Claras e como o estilo de vida urbano impacta diretamente a saúde mental. “É uma cidade com vantagens importantes, como sensação de segurança, acesso a serviços e opções de lazer. Por outro lado, o excesso de estímulos, barulho, trânsito complicado e pressão por desempenho contribuem para o estresse.
Segundo a psicóloga, para alguns, a vida em condomínios representa segurança e socialização. Para outros, gera sensação de vigilância constante e perda de autonomia, especialmente entre jovens que vivem sob proteção excessiva. O ritmo acelerado e os estímulos constantes afetam diferentes perfis, mas são especialmente marcantes nos casos de burnout, cada vez mais frequentes em seu consultório. “Há uma ideia equivocada de que descansar é perda de tempo. E isso adoece. Vemos adultos esgotados e jovens entediados, imersos nas redes sociais, ansiosos por pertencimento e reconhecimento”, observa.

O alívio de poder falar e ser ouvido

A estudante universitária Mariana Franco, de 19 anos, é paciente da psicóloga Ana Brígida desde 2022. Ela compartilha como a terapia passou a fazer parte da sua vida: “Iniciei a terapia por algumas questões pessoais específicas, mas percebi que ela vai muito além de resolver um único problema. A terapia me ajudou, e ainda ajuda a me conhecer melhor, entender quem eu sou, o que gosto e o que não gosto. Sempre digo que fazer terapia deveria ser algo acessível a todos, porque realmente faz muita diferença”.
Outra paciente da psicóloga Ana Brígida relata que procurou ajuda inicialmente por dificuldades com os estudos. Foi com acompanhamento psicológico que ela pôde lidar melhor com suas questões. Para ela, ainda há uma ideia equivocada de que terapia só é necessária em casos graves.
“A saúde mental é tão importante quanto a física. E não é porque seus sintomas são mais discretos que devem ser ignorados. Campanhas como o Janeiro Branco são fundamentais para conscientizar as pessoas e romper com esse senso comum de que terapia é luxo, quando, na verdade, ela é uma necessidade”.

Onde encontrar ajuda emocional gratuita

A saúde mental é parte integrante do Sistema Único de Saúde (SUS) e pode ser acessada gratuitamente por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Além disso, universidades com cursos de Psicologia oferecem clínicas-escola com atendimentos gratuitos ou a baixo custo. Para crises, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta qualificada 24 horas pelo telefone 188.