Por Aline Diniz

Mudar de cidade raramente é simples. Muitas vezes, a decisão vem de uma oportunidade profissional, de um rearranjo familiar ou de uma necessidade que impõe novos caminhos. Em Águas Claras, histórias assim se repetem e, em alguns casos, ganham um desfecho afetivo: a chegada provisória acaba se tornando perm
Na região, quatro moradoras compartilham trajetórias diferentes, unidas por uma experiência em comum: a de transformar um endereço em lar. Nos relatos, o estranhamento inicial dá lugar a vínculos construídos aos poucos, pela convivência cotidiana, pela rede de apoio e por espaços de encontro, como o Parque de Águas Claras.

Redes de apoio e rotina
Médica psiquiatra e moradora de Águas Claras há 14 anos, Lilliane Leal chegou ao bairro em 2012, inicialmente em um apartamento emprestado. A mudança foi motivada pelo relacionamento e pela estabilidade do marido em Brasília, mas a adaptação não veio no início. “Os dois primeiros anos foram muito difíceis. Eu não me adaptava, cheguei a odiar a cidade e muitas vezes chorava”, relembra.
O sentimento começou a mudar quando ela encontrou redes de apoio. A participação no grupo “Mães Amigas” e, depois, na Rede de Solidariedade ampliou os laços e deu novo sentido à rotina. “Foi nesse período que me senti verdadeiramente acolhida. Ali nasceu meu sentimento de pertencimento e propósito na cidade”, conta.
A maternidade também marcou a virada, segundo ela. Durante a gravidez, Lilliane se aproximou de um grupo de gestantes que, 12 anos depois, segue unido. “Essas amizades se tornaram meus pilares aqui”, afirma. Entre os símbolos do pertencimento, ela cita o Parque de Águas Claras. “É um refúgio em meio aos arranha-céus, um lugar de respiro e reconexão.”

Lilliane Leal, médica psiquiatra, conta que chegou a Águas Claras em 2012 e encontrou nas redes de apoio e no Parque de Águas Claras o caminho para o sentimento de pertencimento

Hoje, com casa, consultório e a escola do filho próximos, Lilliane resume a relação com o bairro: “Não existe lugar perfeito, existe o lugar que se adequa ao seu perfil. Para mim, Águas Claras faz sentido.”
A história de Daniele Souza também começou com resistência. Antes de se mudar para Águas Claras, ela morava na Ceilândia. A ida para o bairro ocorreu com a mudança da mãe, e o impacto inicial veio com a impressão de uma cidade vertical e pouco acolhedora. “Eu achava as pessoas aqui muito fechadas, frias e até egoístas”, admite.
Com o tempo, a visão mudou. A proximidade com o parque, o comércio e a convivência com vizinhos e atividades físicas ajudaram a criar uma rede cotidiana de relações. “Achei minha turma. Tudo isso acabou se tornando uma rede de pessoas legais que tornam a rotina mais leve”, diz.
Moradora há quase sete anos, Daniele define o Parque de Águas Claras como extensão de casa. “Sinto que ele é como um grande quintal de lazer. Por isso cuido, preservo e respeito esse espaço coletivo.” Quando alguém pensa em se mudar para o bairro, ela costuma aconselhar: “Um bom dia, um sorriso e uma gentileza fazem toda a diferença.”
Raffaella Brayner de Farias Wanderley conta que a escolha por Águas Claras veio da comparação com a cidade de origem. Prédios mais modernos e uma vida urbana ativa pesaram na decisão. “Preferimos morar aqui por se parecer mais com Recife: uma cidade com vida, onde você vê as pessoas na rua”, diz.

Daniele Souza relata que a mudança para Águas Claras trouxe estranhamento no início, mas a convivência cotidiana e a rotina no parque ajudaram a construir novos vínculos

A permanência foi se consolidando com o trabalho, a chegada do filho e a percepção de qualidade de vida. Ao longo do tempo, Raffaella morou em diferentes áreas do bairro, em trechos mais comerciais e, depois, em regiões mais tranquilas. “Aqui, perto do parque, o ambiente é mais familiar”, avalia. Para ela, Águas Claras equilibra movimento e convivência. “É uma cidade que tem vida, diferente de lugares muito vazios no dia a dia.”
Administradora com atuação em marketing, Rafaela Raposo é a mais recém-chegada entre as entrevistadas e vive em Águas Claras há cerca de dois meses. Nordestina, ela afirma que veio ao Distrito Federal em busca de recomeço e oportunidades profissionais e que a escolha por Águas Claras ocorreu após um convite de tios, que ofereceram acolhimento durante o período de mudança.

Raffaella Brayner de Farias Wanderley diz que escolheu Águas Claras pela semelhança com a vida urbana de Recife e aponta a região próxima ao parque como mais familiar para a rotina com a família.

Segundo Rafaela, o bairro se encaixou no momento que ela vivia, por reunir estrutura urbana, sensação de segurança e possibilidades de trabalho. “Aqui eu vi qualidade de vida, segurança e oportunidades. É um lugar onde você dificilmente fica sem trabalho”, afirma.
Mesmo mantendo vínculos afetivos fora do DF, ela diz perceber que o bairro passou a ocupar um espaço de casa. “Gosto de Olinda e Recife para passear, mas hoje me sinto em casa aqui”, conta. A proximidade de serviços, transporte, comércio e áreas de convivência, na avaliação dela, reforça a sensação de estabilidade e favorece o planejamento de futuro. “Águas Claras é onde penso em novos projetos e em construir uma nova fase da minha vida.”

Daniele Souza relata que a mudança para Águas Claras trouxe estranhamento no início, mas a convivência cotidiana e a rotina no parque ajudaram a construir novos vínculos

Quando o provisório vira escolha
As histórias se cruzam em pontos comuns: a chegada sem encantamento, o estranhamento inicial e a descoberta gradual do que não aparece à primeira vista. Nos relatos, o pertencimento nasce menos da primeira impressão e mais da experiência cotidiana, das redes de apoio que se formam, da praticidade do dia a dia e do verde que se destaca entre os prédios.
Para algumas moradoras, o que começou como necessidade ou oportunidade acabou se transformando em escolha. E é nessa escolha diária que o bairro deixa de ser apenas endereço e passa a ser lar.