Por Chico Sant’Anna

Nessa semana que passou, os moradores do Park Way ganharam duas belas provas da vitalidade da vida silvestre no bairro. Em áreas próximas ao Córrego do Mato Seco, foi avistado e filmado um belo tamanduá-bandeira, alegremente se alimentando numa área, outrora alvo de ocupação irregular. Pouco dias antes, uma jiboia-constritora, de belas proporções, atravessava a rua, rumo ao leito do córrego.
Não longe dali, semanas antes, um filhote de macaco bugio ferido foi recolhido por moradores e levado ao veterinário. Esses são apenas três pequenos exemplos da presença marcante de animais silvestres – sem computar com a infinidade de araras, papagaios, tucanos, curicacas, íbis negros e outras aves. A presença da vida silvestre no bairro é um fato, só não vê quem não quer, e essa característica demanda uma postura responsável, tanto das autoridades, quanto dos moradores.
A região comentada acima é rica também na presença de raposas, cães do mato, capivaras, furões e há quem diga ter visto, inclusive, uma jaguatirica. Mas também é possível se ver muitos invasores, bípedes. Seres humanos que invadem áreas públicas, grilam terras, ocupam e cercam irregularmente áreas que deveriam ser de transição da vida silvestre, ou mesmo de recarga hídrica.
O Córrego do Mato Seco tem suas nascentes próximas ao Catetinho. Comunidade defende a transformação da área em Parque Ambiental. Foto de Thiago Luz
Há décadas, um movimento tenta transformar o leito do Córrego do Mato Seco – de sua nascente, próxima ao Catetinho, até a Foz, na Vargem Bonita – num parque ambiental linear. Esta seria uma forma de assegurar a plenitude de suas águas, que via Ribeirão do Gama, chegam até o Lago Paranoá, mas também um corredor seguro para a vida silvestre.
Sem essa proteção, os animais estão expostos às vicissitudes da presença humana, em especial da expansão urbana e do intenso trânsito.
Infelizmente, o Poder Público tem feito ouvido do moco. Na gestão Rodrigo Rollemberg, a secretaria de Meio-Ambiente (Sema), chegou a dar um parecer favorável, mas o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) sentou em cima do processo e lá está até hoje.
Enquanto isso, se multiplicam loteamentos irregulares, como o das Chácaras Ipê Coqueiros, dentro de uma Área de Relevante Interesse Ecológico. A letargia pública é tão grande que, na atualidade, o novo Pdot permite transformar aquela ocupação em loteamento regular, mesmo estando na área de influência dos Córregos do Ipê e Coqueiros.
Também o caminho da justiça tem se mostrado infrutífero. Em 1991, o poder judiciário deliberou pela desobstrução da área de interferência do Córrego do Mato Seco. A decisão implicava em retirar todas as ocupações irregulares.
A Ação Civil Pública foi até o Superior Tribunal de Justiça, sempre dando razão à natureza. Entretanto, de nada adiantou. É inacreditável como, governo após governo, desde então, nenhum cumpriu a sentença judicial e a Justiça não tem força, nem instrumentos, para fazer derrubar as ocupações high society. Um fenômeno que reforça o adágio que só casa de pobre é derrubada.
É importante dar um freio na expansão urbana no Park Way, seja por iniciativa governamental, seja pela ocupação irregular do solo e mesmo expansão dos limites dos lotes, pelos próprios moradores, que criam puxadões de milhares de metros quadrados. Lote de 2.500 metros quadrados parecem ser insuficientes. É preciso ocupar a área verde, cimentá-la, instalar quadras de tênis ou futebol, retirar a vegetação original e substituir por paisagismo exótico.
As vias internas do Park Way não contam com nenhuma passagem segura para a visa silvestre. Nem passagem aérea, nem subterrânea. Por isso mesmo, infelizmente, não são raros os casos de atropelamentos de mamíferos nas vias do Park Way.
O bairro tem uma infraestrutura precária. Não há coleta e tratamento de esgoto, a coleta de lixo é igualmente deficiente, a rede de energia data de meados do século passado e vive apresentando defeitos, a ponto de um abaixo assinado já ter coletado o apoio de mais de mil moradores, que cobram da Neoenergia uma solução definitiva para tantos apagões.
As vias são poucas e limitadas. Apesar do crescente trânsito que provém do Entorno Sul, não contam com nenhuma passagem segura da visa silvestre. Nem passagem aérea, nem subterrânea. Por isso mesmo, infelizmente, não são raros os casos de atropelamentos de mamíferos nas vias do Park Way.
O pior, é que se de um lado o Poder Público é omisso, de outro ele mesmo planeja agressões ainda mais violentas. Há pouco, se constatou que o GDF tem em seus planos edificar uma estrada ligando a DF 140, na região Tororó, ao Park Way, cortando ao meio a Reserva Ecológica do IBGE, que fica aos fundos do bairro. Uma estrada para um fluxo de 50 mil a 100 mil veículos dia. Entrecortando uma região onde a vida silvestre é ainda mais presente.

O questionamento que fica, é onde vamos parar?
Que futuro nossa vida silvestre terá nessa cidade, onde a indústria da especulação imobiliária e a mão gorda parecem prosperar como em nenhum outro lugar.?
As enchentes e inundações já são uma realidade da cidade planejada. Todo mundo sabe que isso é fruto da forte impermeabilização do solo. Será que não há um basta para tanta coisa errada?