A construção do Parque Central e do Parque Sul sempre esteve ligada a uma necessidade concreta de Águas Claras: garantir áreas públicas de convivência, lazer, esporte e preservação ambiental em uma cidade marcada pela verticalização intensa, pelo crescimento populacional acelerado e pela carência de espaços verdes integrados ao cotidiano dos moradores.
Desde a concepção urbanística da cidade, idealizada nos anos 1990 ao longo da linha do metrô, os parques foram pensados como elementos estruturantes do planejamento urbano. Mais do que áreas de lazer, eles deveriam funcionar como espaços de conexão entre bairros, modais e pessoas, oferecendo respiro ambiental em meio aos prédios altos, às grandes avenidas e à rotina cada vez mais adensada de Águas Claras.

Júlia Lucy defende a implantação dos parques junto ao Governo do Distrito Federal ainda durante a pandemia, período em que a pauta começou a avançar institucionalmente.

A luta pela implantação desses espaços, no entanto, não avançou apenas pela existência de projetos técnicos. Ela foi construída pela pressão constante da comunidade, pela atuação de associações de moradores, lideranças locais e movimentos ambientais que passaram a cobrar do poder público a concretização de uma promessa antiga. Entre essas iniciativas, ganharam destaque a Associação dos Moradores e dos Amigos de Águas Claras, a AMAAC, e o movimento É tempo de plantar, que mantiveram o tema na pauta da cidade.

A mobilização pelo Parque Sul
A história mais recente da implantação do Parque Sul começou durante o período mais difícil da pandemia, quando um grupo de moradores se reuniu com a então deputada distrital Júlia Lucy para apresentar a demanda. Naquele momento, em meio a um cenário de incertezas e restrições orçamentárias, a pauta poderia ter sido deixada para depois. Mas a reivindicação foi acolhida e passou a ser tratada como prioridade pelo mandato.
O primeiro desafio foi localizar o projeto arquitetônico vencedor do concurso realizado pela Terracap em 2017 para o complexo formado pelo Parque Central e pelo Parque Sul. O projeto havia sido elaborado pelo escritório Sidônio Porto Arquitetos Associados, vencedor da seleção nacional, mas em 2021 sequer constava na carga da Administração Regional de Águas Claras. A partir daí, a equipe de Júlia Lucy iniciou uma verdadeira busca pelos documentos necessários para destravar o processo.
O gabinete entrou em contato com o arquiteto Sidônio Porto, responsável pelo projeto vencedor, que encaminhou os arquivos à equipe da deputada. Esse passo foi fundamental para recolocar o parque no caminho institucional e permitir que a discussão deixasse de ser apenas uma reivindicação comunitária para se transformar em uma agenda concreta de execução.

Sidônio Porto, autor do projeto vencedor do concurso do Parque Central de Águas Claras, esteve na abertura da exposição “Um DF Possível”, que reúne propostas de concursos públicos no DF.

Superada a etapa documental, veio o desafio dos recursos. Com os cofres públicos voltados prioritariamente ao enfrentamento da pandemia, Júlia Lucy buscou alternativas para viabilizar o início das obras. Uma das frentes foi a articulação com a Secretaria de Parcerias Público-Privadas do Governo do Distrito Federal, então comandada por Roberto Andrade, com o objetivo de avaliar a possibilidade de financiamento por meio da iniciativa privada.
A tentativa de parceria não avançou como esperado, mas a deputada não abandonou a pauta. A perseverança de Júlia Lucy foi decisiva para manter o projeto em movimento. Em vez de encerrar as tratativas diante das primeiras dificuldades, ela passou a articular junto à Terracap a utilização de recursos vinculados à compensação ambiental, permitindo que etapas importantes do Parque Sul fossem executadas.
Com essa articulação, foi possível iniciar obras de calçadas, meios-fios, quadras e estacionamentos previstos no projeto. Ainda em 2021, o Parque Sul começou a sair do papel, resultado de uma combinação entre mobilização popular, pressão comunitária e atuação política persistente. Para os moradores, a obra representou uma conquista concreta depois de anos de espera.
Hoje, o Parque Sul já é uma realidade parcial para Águas Claras. O espaço oferece quadra profissional de patinação, quadras de beach tennis, áreas para múltiplos esportes, pista de corrida, brinquedos infantis e arborização, criando um ambiente voltado ao esporte, ao lazer e à convivência familiar. Embora ainda não represente a execução integral do complexo planejado, sua implantação demonstra que a mobilização da cidade pode produzir resultados.

A cobrança pelo Parque Central
O Parque Central, por sua vez, permanece como a grande lacuna dessa história. O projeto executivo está pronto e aprovado, com dezenas de pranchas detalhando sua implantação. A proposta prevê equipamentos como anfiteatro, borboletário, centro administrativo, passarelas elevadas, áreas de preservação e a Praça dos Arcos, uma passarela ajardinada sobre os trilhos do metrô, concebida para unir fisicamente e simbolicamente os dois lados da cidade.
A necessidade do Parque Central se tornou ainda mais evidente diante da densidade populacional de Águas Claras, que reúne mais de 142 mil moradores em uma área reduzida. Em uma cidade onde os deslocamentos a pé, de bicicleta e por transporte público fazem parte do planejamento original, a implantação do parque também significa melhorar a mobilidade, ampliar a segurança dos pedestres e fortalecer um modelo urbano mais humano.
Nos últimos anos, a comunidade voltou a se mobilizar com força em defesa da área destinada ao Parque Central. A instalação de um estande de vendas em parte do terreno provocou reação de moradores e entidades locais, que acionaram a Justiça e conseguiram a suspensão da intervenção. O episódio reforçou a preocupação da população com a preservação da finalidade pública da área e com a necessidade de impedir novas ocupações que não estejam alinhadas ao projeto original.
A conquista do Parque Sul e a luta pelo Parque Central revelam uma trajetória marcada por persistência. De um lado, moradores que não abriram mão de cobrar áreas verdes, equipamentos públicos e qualidade de vida. De outro, a atuação de Júlia Lucy, que, durante o mandato de deputada distrital, assumiu a pauta, buscou documentos, articulou alternativas de financiamento e insistiu junto aos órgãos do governo até que as primeiras obras fossem iniciadas.
A entrega integral do complexo ainda depende de novos recursos e de decisão política. Mas a experiência do Parque Sul mostra que a combinação entre comunidade organizada e representação pública comprometida pode transformar projetos antigos em conquistas reais. Para Águas Claras, o Parque Central e o Parque Sul continuam sendo mais do que obras urbanas: são parte essencial da cidade planejada, sustentável e integrada que seus moradores reivindicam há décadas.