Por Elsânia Estácio

Cerca de 30% da população do Distrito Federal poderá estar em condição de obesidade até 2030, segundo projeção baseada em dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. Em 2023, o cenário já indicava avanço: 60,3% da população apresentava sobrepeso e 21,9% estava em condição de obesidade.
Entre 2018 e 2023, também foram registrados fatores de risco como consumo abusivo de álcool, baixa ingestão de frutas e hortaliças e aumento da obesidade. Apesar disso, houve crescimento na prática de atividade física no tempo livre, além da redução no consumo de ultraprocessados e no uso de tabaco. Em Águas Claras, o tema também preocupa moradores e profissionais de saúde, que relatam mudanças no estilo de vida e seus impactos na saúde.

Segundo Yadra, o ponto de virada aconteceu após a gravidez. Sem poder recorrer a medicações, decidiu seguir um processo estruturado, baseado em alimentação e atividade física. Em cerca de um ano, ela eliminou mais de 30 quilos, passando de 89 para 56 quilos, e depois ajustou o peso com ganho de massa muscular. “Foi dieta e treino, com constância. Hoje encontrei meu equilíbrio”, diz.

A nutricionista Cristina Borges, que atua na região, afirma que a obesidade deve ser compreendida como doença crônica, o que exige tratamento contínuo e acompanhamento a longo prazo. “Significa que ela é reconhecida como uma condição de longa duração, multifatorial, e que requer manejo contínuo. O cuidado é para sempre, focando na manutenção da saúde e não apenas na perda de peso inicial”, explica.

Segundo a nutricionista Cristina Borges, o tratamento vai além de dietas pontuais e envolve diferentes aspectos da saúde. Assim como diabetes ou hipertensão, a obesidade não tem cura rápida. O tratamento é contínuo, com acompanhamento e abordagem multidisciplinar.

Obesidade como doença crônica
A nutricionista Isis Feliciano Moura Araújo, especialista em saúde da mulher e nutrição esportiva, reforça que o avanço da obesidade está ligado a múltiplos fatores. “Trata-se de um fenômeno decorrente de transformações no estilo de vida e no ambiente em que vivemos. A população está cada vez mais exposta a fatores que estimulam o aumento de peso, como alimentos ultraprocessados, estresse, privação de sono e sedentarismo”, explica.
Isis também destaca as principais complicações associadas ao avanço da doença. “As maiores preocupações hoje são o diabetes tipo 2, a hipertensão e as doenças cardiovasculares, como infarto e AVC. Também vemos aumento de gordura no fígado, alguns tipos de câncer e problemas articulares”, afirma.

A médica Milen Mercaldo também ressalta o papel da família. “A rotina impacta diretamente. A falta de tempo leva à substituição da comida de verdade por opções rápidas. E os pais são referência: o que entra em casa e como se come faz toda a diferença”, destaca.

Impactos na infância
Entre crianças e adolescentes, o avanço da obesidade também já é percebido. A médica pediatra Milen Mercaldo relata que o excesso de peso tem surgido cada vez mais cedo nos consultórios. “Cada vez mais chegam crianças e adolescentes com sobrepeso, muitas vezes desde cedo. Isso vem acompanhado de outros problemas de saúde, como diabetes, hipertensão e questões emocionais”, afirma.
Ela explica que o problema está ligado a um conjunto de fatores. “O excesso de telas gera comportamento sedentário e expõe a criança a hábitos pouco saudáveis, inclusive ao marketing de alimentos ultraprocessados. Além disso, a falta de espaços para brincar reduz o gasto energético”, diz.

Para a nutricionista Isis Feliciano Moura Araújo, a prevenção deve ser baseada em medidas acessíveis. “Não precisa ser radical. O mais importante é consistência no dia a dia, com melhora da alimentação, redução de ultraprocessados, prática de atividade física e cuidado com o sono e o estresse”, orienta.

Desafios e mudanças de hábitos diante do cenário
Moradores de Águas Claras compartilham experiências que refletem os desafios e as mudanças necessárias diante do sobrepeso e da obesidade. A coach e palestrante Yadra Azevedo conta que conviveu com a obesidade desde a infância, marcada por ciclos de perda e ganho de peso ao longo dos anos. “A obesidade não é uma brincadeira. É uma doença crônica, com grande potencial de recidiva. Minha vida foi esse efeito sanfona por muito tempo”, relata.

Ao longo do processo, o consultor de negócios Carlos Sousa também identificou erros no início da mudança. “Quis mudar tudo de uma vez, com dieta rígida e treino intenso. Isso não se sustenta”, avalia. Hoje, defende uma abordagem mais gradual, baseada em hábitos simples e contínuos, com foco na manutenção a longo prazo

O consultor de negócios Carlos Sousa relata que a mudança começou ao perceber a queda de energia. Para ele, a decisão de mudar foi motivada pela busca por qualidade de vida. “Não era mais sobre aparência. Eu estava com menos energia e rendendo menos. Ou eu mudava, ou continuaria vivendo uma versão limitada de mim mesmo”, afirma.
Já a estagiária em administração Nathália de Jesus Silva conta que percebeu a necessidade de mudança a partir de sinais físicos e emocionais. “Eu estava cansada sem motivo, com dores nos joelhos e na coluna, além de mudanças na pele. Foi aí que percebi que precisava cuidar melhor do corpo”, relata.
Nathália afirma que adotou mudanças práticas na rotina, como a redução do consumo de açúcar e o aumento da ingestão de água. Apesar dos avanços, Nathália destaca que o maior desafio está no aspecto emocional. “A luta continua, e a maior dificuldade está nos pensamentos. A comida muitas vezes vira um refúgio”, afirma.