Sou advogada e na minha profissão tenho acompanhado alguns casos
de mulheres em situação de violência e, infelizmente, ainda é muito comum
ouvir de pessoas próximas à mulher que ela sofre porque quer. Existe um
equivocado imaginário popular transmitindo a ideia de que se uma mulher é
financeiramente independente, ou se ainda não tem filhos, pode facilmente sair
daquele relacionamento violento.

Mas me permita trazer uma verdade de extrema importância: nenhuma
mulher se casa ou se une pensando em sofrer. Pelo contrário, o início da vida a
dois é repleta de sonhos e expectativas. Mas, no decorrer dos meses ou dos
anos a realidade pode mudar e já não ser igual àquilo que ela planejou só que
agora existe um lar, existem filhos, pode existir uma dependência financeira ou
emocional.

A verdade é que nem sempre estar em um relacionamento conturbado é
questão de escolha. E tudo que essa mulher menos precisa é de julgamento,
ninguém realmente sabe o que a mantem ali. Em pesquisa de dados realizada pelo Senado 1 no ano de 2017, foram listadas as principais razões que levam mulheres a não denunciar, e a vontade de permanecer no relacionamento não é apresentada como um motivo. Isso
demonstra a existência de fatores que precisam ser levados em consideração.
O fator culpa, por exemplo, é muito presente nestas situações.

A violência doméstica ocorre de forma cíclica é comum o agressor convencer a
vítima de que se ela está sendo agredida a culpa é dela. Ele a convence de
que a violência ocorre porque ela não sabe seguir as regras que lhe são
impostas. Ou seja, uma mulher convencida desta realidade, ainda que
distorcida, jamais denuncia o agressor porque ela não o vê assim, essa mulher
foi manipulada a crer que a culpa é dela e, portanto, para ela não há agressão.

Por isso, precisamos aprender a importância do atendimento
humanizado. Buscar entender a realidade de cada uma me faz ter um olhar
diferenciado com as mulheres que me procuram. A vítima de violência precisa
de acolhimento. Ela precisa redescobrir seu valor e saber que há força dentro
de si para buscar ajuda e encontrar uma solução que a permita progredir
emocionalmente até que ela consiga se ver livre daquele relacionamento
violento.

Pode ser que você leitora, esteja passando por uma situação de
agressão, você percebe que de alguma forma o seu relacionamento tomou
outro rumo, e apesar das tentativas, não está dando certo. Neste ponto é muito
importante procurar ajuda, reconheça que sozinha está difícil vencer esse
problema e busque por um profissional de confiança que possa te orientar.
E para quem conhece mulheres nesta situação, se permita ter uma
escuta solidária, ouça sem julgamentos, aconselhe com empatia. A violência
doméstica é um problema social que precisa ser combatido, mas até que a
vítima reconheça a necessidade de denunciar existe um caminho a ser
percorrido.

1- https://www12.senado.leg.br/institucional/datasenado/arquivos/aumenta-numero-de-mulheres-que-declaram-ter-sofrido-violencia

Priscila Tenório Gomes
Advogada membro da Comissão Nacional da Mulher – ABA
Dra. Celiane Araújo
Presidente da CNM – ABA
Supervisionado por Abraão Moura e Débora Morais

 

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